Alguém já te disse que seu corpo te pertence?

Ei, moça! Você que está grávida! Alguém já te disse que você tem TOTAL autonomia sobre seu corpo? Que NADA deveria ser feito sem sua autorização, consentimento?

É horrível termos de dizer o óbvio, mas o cenário de obstetrícia tá assim por aqui. Por aqui no mundo, quero dizer. Não é uma exclusividade brasileira, infelizmente. Alguns países já acordam da sua morbidez desumana, mas outros estão caminhando a passos de formiga.

O patriarcado se aproveita muito bem dos avanços tecnocratas (que demoniza tudo que é natural, enquanto tudo que é tecnológico é melhor), do positivismo nas instituições (onde a classe médica tem um status superior que qualquer outra classe profissional), do capitalismo (onde o dinheiro fala mais alto). A centralização dos partos nos hospitais tornou esse momento único num caso patológico. Tudo a ser acompanhado de perto por toda gente que sabe muito mais que você (mera ignorante…), com todo tipo de drogas medicamentais para te anestesiar, te dopar, te fazer adormecer e não ver nada, não sentir nada… e você nem vai se lembrar, não é bom? Você não vai sentir, não vai ver, não vai ouvir. É como se nem tivesse ali. É como se não fosse com você. Não é bom? Você não vai passar pelo parto.

Pelo seu próprio PARTO.

Que não é algo ruim, não é doença, não é um limbo de dor. Não tem que ser assim, como tantos querem te fazer acreditar. Pode ser lindo, pode ser mágico, pode ser respeitoso, pode ser um dos poucos momentos da sua vida em que você vai se encontrar com sua natureza mais animalesca, ver a capacidade do seu corpo a fundo, sentir outras vibrações, estar conectada consigo mesma. Uma memória para toda a vida.

Mas tão alienada estamos de nós mesmas, depositando não só toda a confiança, mas também todo o conhecimento e poder, centralizando tudo na classe médica – os profissionais que tudo sabem e nada precisam te dizer – que perdemos nossa autonomia no processo. Tiraram-na de nós, na verdade.

A mulher passa pela gestação e parto sem ter um mínimo de conhecimento sobre o processo, sobre os muitos exames que faz, pra quê servem, por quê faz, a real necessidade e indicação de cada coisa que é feita picando seu braço, colocando um cano na sua vagina, o dedo no seu canal, aparelho na barriga. Passa pelo parto sem conhecer seu próprio corpo, sua fisiologia, saber as etapas do parto. Quando começa, fica tudo confuso, desesperado, como num filme ou novela, é só gritos e ansiedade, corre pro hospital, toma remédio, apaga essa mulher, deixa o médico salvar a bagunça.

Mas, ei, moça, seu corpo gestou uma vida, um ser humano cresceu dentro de si, acha que não conseguiria trazer essa vida aqui pra fora? A natureza é perfeita, moça. Acredite mais no seu corpo.

Eu sei que te disseram o contrário. Mas saiba que seu corpo é capaz. Você é capaz. Quem é que te quer convencer que você é fraca?

Existem muitas intervenções que são feitas rotineirae desnecessariamente, sem qualquer embasamento científico. Sem NENHUMA necessidade. E você não sabe. Isso tá acontecendo no seu corpo. Intervenção de terceiros, cortes, suturas, drogas direto na corrente sanguínea (o bebê está ligado a você, não? não passará pra ele?)… pra você não viver seu momento. Pra você não ter voz, poder, decisão, autonomia. Quem quer te ver calada e submissa, moça?

Por isso, faça um ato rebelde contra esse sistema que te quer calada e imóvel: informe-se. Leia, moça, leia muito. Vá em encontros de gestantes, procure ajuda, procure doulas, parteiras, enfermeiras e médicos comprometidos com a humanização. Gente humanista, capaz de ser honesta contigo, te explicar etapa por etapa com clareza. Gente que confia no seu corpo. Que respeita sua autonomia. Que não te trata como paciente, como doente carente de intervenção de um profissional salvador. Gente humana que olha pra si e vê uma pessoa, não um punhado de notas no fim do mês e um bebê a mais no mundo.

Retome sua autonomia. Conheça seu corpo. Conheça o processo. Saiba o que vai acontecer contigo e o que pode ou não ser feito, o que deve e não deve ser feito. Seja dona de si, não submissa.

Não deixe que roubem seu parto.

Não deixe que te roubem de si.

Créditos da imagem: Escreva, Lola, Escreva!
Créditos da imagem: Escreva, Lola, Escreva!

Leia aqui: As 50 Intervenções desnecessárias durante a gravidez, parto e pós-parto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *