Cantinho da disciplina x Tapetinho da Paz

Hoje quero trazer dois métodos para resolução de conflitos em relação às crianças: o cantinho da disciplina, método da Supernnany, e o tapetinho da paz, do método Montessori. E, claro, discutir um pouco sobre os dois para ver qual pode ser o melhor meio para usarmos em casa com nossos filhotes. Esse é só meu ponto de vista, obviamente, mas fiquem à vontade para tirar suas próprias conclusões e adicionar seus pontos de vistas sobre o assunto J

Cantinho da Disciplina

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Os pais mostram as regras da casa aos filhos (utilizam plaquinhas com figuras exemplificando), explicam e fazem um combinado de obediência. Se ele desobedece, o pai ou a mãe faz uma única advertência. Se a desobediência se repete em um período de 24 horas, a criança é levada ao cantinho da disciplina: lugar destinado a isso, como um tapetinho, cadeirinha ou simplesmente um espaço determinado em qualquer parte da casa. A criança fica sentada ali um minuto por ano de idade, para refletir sobre seu comportamento. Depois desse tempo, o pai ou a mãe se aproximam e perguntam ao filho se sabe por que foi colocado ali. Geralmente ele sabe. Então, ele pede desculpas e os pais o abraçam, beijam e dão muitas manifestações de amor.

Aqui tem alguns exemplos de plaquinha do site da própria Supernanny, dêem uma olhada, por favor, porque farão parte da discussão depois: placas de regras da casa.

 

Tapetinho da Paz

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O “tapetinho da paz” ou “mesa da paz” é usado nas escolas do método Montessori e também pode ser usado em casa pelos pais. Na escola, os alunos são estimulados a resolver os próprios problemas expressando seus sentimentos, usando expressões como “eu me senti…” e se envolvendo em uma escuta respeitosa. O professor monitora a troca e orienta somente se for necessário. Alguns lugares colocam uma flor no centro da mesa, quem quiser falar, pega a flor e se expressa (por exemplo: “eu não gostei quando você me chamou de feia porque isso me fez sentir mal”); o outro aluno ouve o primeiro e, quando ele termina, pega a flor e se expressa também (“eu te chamei de feia porque você mordeu o meu braço e isso me machucou”).

Aqui tem um vídeo de uma criança explicando e mostrando como é o Tapete da Paz: What is the peace rug?

* Desculpem, o vídeo está em inglês. Basicamente, a criança está explicando o que é o tapete da paz (traduzindo um pouco das palavras dela): “você está sendo mau pra mim, pode vir até o tapete da paz comigo?”; a “entrevistadora” pergunta o que se faz lá e ela diz “primeiro nós dizemos o que fizemos e depois ele diz o que pode te fazer se sentir melhor e depois nós abraçamos ou apertamos as mãos. Primeiro o abraço e, depois, fazemos as pazes”.

Comparação e análise

A primeira observação que gostaria de fazer é que os dois métodos vão por vias diferentes, um vai pela força e outro pelo diálogo.

9bdcb-supernannyO cantinho da disciplina é punitivo e autoritário, pois não permite diálogo. Aliás, essa é a ideia que a própria imagem da Supernnany, personagem de Cris Poli, passa. Esse cantinho é uma imposição do adulto que exerce seu poder sobre a criança: ela fez algo de errado e o adulto, todo poderoso sobre ela, impõe um castigo que não pode ser contestado ou conversado. Ele é impositivo e intransigente. Ele funciona? Funciona, mas não transforma. A criança vai aprender a se resignar, a se submeter, pois tão pequena é incapaz de refletir sozinha sobre as causas e conseqüências de suas ações. Portanto, refletir sobre o erro é permanecer no erro e não consertá-lo. O próprio nome “cantinho da disciplina” é bastante explicativo: disciplinar a criança, o que me soa meio militar nesse caso, já que a disciplina parte do adulto pra ela. Algo como “entrar na linha”, à força. O que estamos ensinando às crianças quando punimos por suas ações sem discutir sobre isso e forçamos que “engulam” a raiva, isoladas e humilhadas (pois é uma condição humilhante quando somos colocados de castigo e nos sentimos menor frente a uma terceira pessoa que tem esse poder sobre nós)? Fomentamos a frustração e a submissão, tão somente.

O tapetinho da paz é algo democrático, pois pode ser sugestão dos pais (em casa), dos professores (na sala) ou da própria criança que sentir necessidade de falar sobre o que aconteceu. Ele não é imposto: é uma opção. Sobressai em relação ao outro quando percebemos que ele é um meio de conciliação, de diálogo e não de punição, como o cantinho da disciplina. O tapete da paz visa isto mesmo: fazer as pazes e trabalhar as emoções, ensinar a criança a se expressar e também a ouvir, vendo o que sua ação causou e fazendo que o outro também veja o que sua ação fez o amigo sentir. Portanto, aqui ressalta a autodisciplina, pois as causas e conseqüências são claras para a criança e resolvem entre si. Aqui, a disciplina é uma conquista da criança, no outro, a disciplina é uma imposição do adulto.

Eu, particularmente, não usaria jamais o cantinho da disciplina, acho que é uma forma de violência, mas simbólica. Não acredito nessa abordagem autoritária e me sentiria muito mal usando com meu filho. Essa discussão me fez lembrar uma frase do Paulo Freire, com a qual finalizo o post, que diz o seguinte: “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”.

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