GUESTPOST: Gestação e maternidade especial

Quando descobri que estava grávida, já com quase dois meses de gestação, foi como levar um soco no estômago: tive falta de ar, vertigem e todo o pavor que uma gravidez não planejada pode causar numa mãe de primeira viagem.

Vem o desespero, o medo de contar para o companheiro: não importa se marido, noivo, namorado ou ficante. O medo ou a ansiedade da reação sempre existirá, seja com alegria ou com angústia.

Grávida de Angelo Gabriel, que seria diagnosticado com Síndrome de Dandy-Walker.
Grávida de Angelo Gabriel, que seria diagnosticado com Síndrome de Dandy-Walker.

No meu caso, o medo de revelar para a família. Por mais que já tivesse meus 26 anos, ainda morava com meus pais, tinha um namoro recente e havia pouco mais de um mês que engajara meu novo emprego. Era idealista e uma gravidez não fazia parte dos meus planos, mas obviamente não tomei os cuidados necessários para não desviar o percurso.

Isso acontece com muitas jovens mulheres, não é nada incomum. No começo, gera espanto e escândalo entre os familiares e amigos, mas depois todos concebem bem a ideia de ter um pequeno ser humano indefeso para paparicar e ficar procurando vestígios genéticos.

Exceto quando além da gravidez se é surpreendido por um fato: seu filho será Especial!

O mais curioso é que esta noticia não chega assim pronta, ela vai se formando ao longo da gestação e você vai gerando. junto com o seu bebê, um monte de pré-conceitos, temores e expectativas. Nenhum médico diz o que seu filho será, mas sim o que ele não será. E “normal” é o que obviamente não faz parte destas definições.

E foi assim que, aos 4 meses, numa ultrassom morfológica, vi que meu bebê tinha má formação. Nem de longe imaginei tudo o que estava por vir, mas fui acometida por uma avalanche de dúvidas e perguntas que nem mesmo eu sabia a resposta.

E você fica na expectativa de que aquilo passe. Tudo o que você sabe é que ainda existem alguns meses pela frente e torce para que essa realidade desconhecida mude.

Toda mulher gestante tem o acompanhamento de seu obstetra, a gestante de uma criança especial precisa de neonatologistas, neurologistas e outras especialidades que acompanhem o caso até o nascimento para, assim, tirar suas dúvidas e precauções.

Na maioria dos casos, é uma gravidez traumática, cheia de riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. O organismo tenta expulsar o feto mal formado, pois este gera complicações à mãe e daí vem também o risco de um parto prematuro. Tudo o que uma futura mãe pode temer.

Além de você ter que digerir a informação de que seu filho pode não nascer ou nascer morto e se nascer pode não sobreviver. E se sobreviver não se sabe o que ele será, ainda tem que lidar com os julgamentos. Olhares que ficam analisando, analisando o que você come, o que você veste, como se comporta, pra saber se dentro do seu comportamento você quer esta gestação ou se tentou se livrar dela e por isso o feto estaria sofrendo tais consequências.

Tentou aborto!

Essa frase vai perpetuar do inicio ao fim. Mesmo nos bebes especiais mais desejados, a mulher sempre será acometida por este julgamento (talvez ela não queira um filho deficiente e tentou abortar!).

Depois virão julgamentos secundários como: não se alimenta direito e porque fez isso ou aquilo, tomou remédio sem indicação medica, pré-disposição genética, bebeu, fumou, foram drogas. Ou, tal como ouvi, “é por causa do seu sangue”, numa resposta mal interpretada quando o obstetra nos explicava sobre fatores sanguíneos que podem causar má-formação no feto. E, óbvio, antes que a hipótese fosse comprovada, o diagnostico já veio: foi o seu sangue!

A gestante especial terá uma série de restrições médicas, em alguns casos repousos absoluto e nada, nadica de nada de contato sexual com o parceiro.

Porém, confesso, minha vida sexual foi uma beleza. E tirando a dificuldade para andar e a fadiga enorme, eu trabalhei e festei até uma semana antes do meu filho nascer.

Claro que você precisa sim ser precavida, mas não se torne prisioneira disso, ninguém conhece seu corpo mais do que você, ninguém conhece seus limites mais do que você.

Nem toda criança especial vem de uma gravidez especial. Muitas mães sequer são informadas das deficiências de seus filhos e muitas vezes só recebem o diagnóstico depois que nascem. Em alguns casos, levam uma gravidez tranquila e normal, mas isso vou relatar melhor num outro momento.

Frequentemente recebo mensagens no facebook ou na pagina de meu blog, onde relato o desenvolvimento do meu filho, de mães desesperadas por uma informação sólida, cansadas dos eufemismos médicos ou das tragédias gregas que eles afirmam antes mesmo de saberem exatamente o que a criança tem.

Já tive o caso de uma mãe que estava tão assustada que não queria fazer o quarto do filho, porque tinha medo de se decepcionar depois. Em teoria, ela estava gerando psicologicamente a morte. Estava com tanto medo de não ter o seu bebê após o parto, que não queria sequer fazer enxoval ou criar expectativas acerca do pequeno ser que estava morando em sua barriga.

Ele esta lá! E isso não vai mudar. Você já é mãe!

Pode não amar ainda o seu filho, pode rejeitar essa ideia assim como eu que não aceitava estar grávida, mas ele vai continuar lá crescendo dentro de você.

E por mais difícil que seja lidar com os prognósticos incertos, você tem todo direito de dar a ele tudo o que gostaria de dar a um filho e se, como eu, ainda não aceitava, criar esse ambiente novo na sua vida pode lhe dar o conforto de que necessita neste momento.

Fingir que o seu bebê não esta ai ou tentar não se apegar a ele não irá mudar os fatos de que em um dado momento você terá que lidar com essa realidade fisicamente. Agora você não o vê, agora só sente dores, incômodos, desconfortos, mas uma hora terá que estar frente a frente com um pequeno rosto, com furinho no queixo, olhinhos fechados dormindo angelicalmente e aquelas mãos tão pequenas que lhe farão fazer exclamações idiotas: nossa, tenho um bebê!

A maternidade especial não é especialmente mágica como deveria, mas especialmente difícil assim como tudo o que sugere cuidados extras. Mas o meu conselho é que você não lute contra isso, não desista antes do seu bebê nascer, não se culpe, não se julgue nem condene. Viva intensamente este momento como deve ser vivido e, se sentir dificuldade, procure um profissional, procure ajuda, procure tudo o que te faça bem.

Não se apegue ao desespero, mas sim à paciência. Estude! Quanto mais souber, melhor saberá lidar. Procure casos semelhantes, nada como um bate papo com alguém que viveu a mesma experiência para te trazer tranquilidade, muitas vezes não é o bicho de sete cabeças que você desenhou.10646846_770858892952736_8109393602106020985_n

Acredite, você é capaz! Não se sinta punida pelo universo, uma pecadora. Mas atribua a si mesma os adjetivos necessários para tornar este momento suave, para que se sinta apenas o necessário: mãe!

Algumas mulheres se sentem privilegiadas por Deus, como quem recebeu uma missão importante. É como gosto de me sentir também. Você pode atribuir a si mesma o adjetivo que quiser: escolhida, guerreira, forte; mas não se esqueça: seu principal objetivo é ser mãe.

Seja essa mãe, proteja sua cria, alimente-a, agarre-a ai mesmo na sua barriga e, quando sentir medo, indefesa, sentir vontade de chorar, chore, você também é humana, também é um ser individual e tem suas necessidades também.

Quanto à sua gravidez, a sua barriga vai crescer como qualquer outra, seu filho irá se mexer, te dará enjoos, náuseas, azias, gases, sono… muuuuito sono, te deixará emotiva, impaciente, inchada e vai te fazer dormir de lado e até mesmo sentada. E isto te torna igual a todas as gestantes do mundo, mas única para o seu bebê. Seja especial para ele, como ele será para você.

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Adriana Rossi é mãe de um lindo menino
especial chamado Ângelo Gabriel, 6 anos, turismóloga do estado de Mato Grosso
e autora do blog Meu Ângelo.

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