Introdução alimentar: quando e como

Os pais, especialmente a mãe, costumam ficar muito entusiasmados e ansiosos pela introdução alimentar do bebê. Não só porque é uma nova fase – e a gente, bobo, vibra a cada fase nova do nosso filhote – mas também porque é uma liberdade a mais! A criança não será mais dependente exclusivamente do peito, do leite materno!

Essa ansiedade, entretanto e como sempre, às vezes atrapalha e faz com que os pais comecem a introdução mais cedo que deveria. Por outro lado, nem sempre é culpa dos pais: a licença maternidade acaba antes, a família faz pressão (“até quando esse bebê vai ficar no peito?”, “ta na hora de comer?”, “seu leite é só água, tem que dar comida”… um monte de especialista em nada dando pitaco em tudo, te pressionando e atrapalhando nas suas decisões e no desenvolvimento do filhote), ou o bebê foi pra creche, ou o pediatra ludibriou os pais (não abro mão dessa palavra, pois o que muitos fazem é de fato ludibriar)… Enfim. Entretanto, a introdução precoce é um risco muito grande que não vale a pena correr!

11825637_913737182033994_955365932609715734_nA OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a amamentação exclusiva até os 6 meses de idade. Mesmo que seu filho tome fórmula, não só leite materno. Se você tem que voltar antes ao trabalho, pode ordenhar leite e estocar para oferecer ao bebê enquanto estiver fora ou mandar para a creche. Pode ler também sobre o amparo legal para mães trabalhadoras que amamentam aqui.

Por que então começar só a partir dos 6 meses? Porque antes disso o sistema digestivo do bebê ainda não está preparado para digerir outras comidas e, passado esse período, o organismo da criança estará mais forte para combater eventuais infecções ou alergias decorrentes da alimentação variada – que, acredite, é muito comum! Até o sexto mês, o leite materno é TUDO que seu filho precisa. Nem água, nem suco nem chá. Só leite materno!

O site A Nutricionista listou alguns bons motivos para não introduzir sólidos antes dos 6 meses:

– Aumento do risco de alergia alimentar: alguns alimentos são considerados especialmente alérgenos, como ovos, peixes, oleaginosas, frutas cítricas e leite de vaca, sendo este último responsável por 20% das alergias alimentares. O consumo precoce desses alimentos desencadeiam reações imunológicas, fazendo com que a criança desenvolva quadros alérgicos e de intolerância alimentar.

– Diarreia: Muito comum pelo consumo de alimentos muito ricos em amido, além do contato do organismo do bebê com bactérias presentes nos alimentos devido à contaminação destes durante a preparação.

– Outras doenças como asma, pneumonia e demais infecções: causadas pelo contato do organismo da criança com proteínas diferentes daquelas encontradas no leite humano, e a diminuição da imunidade do bebê (pois o leite materno fornece anticorpos que protegem a criança).

– Deficiência de absorção de nutrientes: o excesso de amido e de vegetais dificultam a absorção de alguns nutrientes (como ferro e zinco, por exemplo), causando deficiência de crescimento e até mesmo desnutrição.

Papinhas e sucos?

Quando era a minha vez de fazer a introdução alimentar, li muito a respeito para me informar e escolher aquilo que me parecia melhor para o meu filhote, o meu modo de maternar. A maioria indicava começar por papinhas e sucos. Eu não estava comprando muito a ideia.

Por que não suco?

  • Ao processar a fruta, destruímos as suas fibras que são excelentes e essenciais para o funcionamento do intestino;
  • Prejudica o estímulo à mastigação;
  • Absorção de maior quantidade em menos tempo da frutose (açúcar da fruta), que rapidamente se transforma em glicose e aumenta a quantidade de açúcar no sangue.

Também não é indicado peneirar o suco pelos mesmos motivos. Lembrando que a frutose pode ser tão ruim pra saúde quanto o açúcar branco – lembro de quando estava grávida e minha doula recomendava ir com calma mesmo nas frutas porque, em grande quantidade, podiam alterar a minha curva glicêmica justamente por conta da frutose!

A NHS (National Health Service – Reino Unido) e a Academia Americana de Pediatria (EUA) concordam que sucos não devem ser oferecidos para crianças menores de 6 anos, pois não trazem nenhum benefício. A NHMRC (National Health and Medical Research Council – Austrália) e a Health Canada são mais rigorosos: são desnecessários e não recomendados para crianças até um ano de idade. A Academia Americana de Pediatria ainda alerta que o consumo excessivo de sucos pode estar associado com diarreia, flatulência, distensão abdominal e cárie dentária, além de subnutrição!

E as papinhas?

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O pediatra espanhol  Carlos Gonzalez, autor de vários livros e fundador da Associação Catalã de Amamentação, explica que estamos fazendo tudo errado. O erro, explica o médico, começa quando trituramos as comidas para dar em formato de papinhas na introdução alimentar dos bebês. Segundo ele, há crianças que chegam aos dois anos sem saber mastigar ou que têm ânsia pois não sabe lidar com pedaços sólidos de comida. (fonte aqui)

Particularmente, não tenho nada contra as papinhas. Nada muito extenuante. Cheguei a fazer algumas para dar ao meu filhote, mas nunca tratei nem considerei como forma principal de fazer a introdução alimentar. Preferia dar a fruta in natura mesmo para ele comer. Sim, mesmo sem dentes. Tirava a casca (às vezes nem isso) e dava pra ele. Por que? Não escondo de ninguém como sou apreciadora de Maria Montessori (pedagoga e médica italiana) e aprendi com ela a dar valor na educação sensorial, nas experiências sensoriais da criança. Dar papinha para a criança é fácil: não suja, ela come e engole. Ela é totalmente passiva no processo. Dar a fruta é instigante! Ela toca, sente a textura, experimenta com todos os sentidos antes de começar a comer: pega, sente o cheiro, contempla com os olhos, descobre a fruta e, por fim, come. Isso torna o processo muito mais interessante pra ela e, assim, a facilita a introdução alimentar. É muito mais fácil quando nos interessamos por aquilo que estamos fazendo do que quando simplesmente temos que encarar como nos foi dado, não é verdade?

Descobri logo o BLW – Baby Led-Weaning (ou o método do “bebê que come sozinho”). No BLW, algumas das regras são:

  1. A introdução alimentar só deve ser feita quando a criança souber se sentar sozinha, sem ajuda; evitando os riscos de engasgo.
  2. Nada de papinhas! Os alimentos devem ser apresentados para a criança pegar e comer por si mesma, sem ajuda do adulto (ou seja, sem ficar colocando na boca dela).
  3. Não coloque nada na boca da criança: ela deve se interessar e pegar o alimento. Isso também vai ajudar no seu desenvolvimento motor, na coordenação e movimentos de pinça.

No começo, é normal ficar apreensivo com engasgamentos, mas acredite: confie no seu bebê. Nosso corpo foi feito para sobreviver, não para se matar com qualquer situação. O BLW estimula a mastigação – mesmo que o bebê não tenha dentes sobre a gengiva, ele já os tem sob a gengiva e vai treinando, já consegue ao menos amassar os alimentos! – e quando o bebê não conseguir engolir, ele vai simplesmente voltar o alimento, mastigar novamente e engolir. E vai fazer isso o quanto for necessário até que esteja no ponto ideal para sua digestão! Se você quiser ler mais sobre BLW, pode dar um pulo na página no facebook clicando aqui e pode dar uma lida nessa matéria da Revista Crescer aqui.

Começando, na prática

Gio e o BLW
Gio e o BLW

É normal que o bebê não queira aceitar nada no começo, principalmente se a mãe tiver perto. Às vezes é preciso que você saia do cômodo (por mais curiosa que esteja), caso contrário ele vai recusar até que você ofereça o peito. Assim, toda vez que oferecer comida, pode ser que ele recuse sabendo que o peito está ali, é só insistir! Por isso é tão importante que o bebê se interesse pelo alimento, não que seja forçado a comer. Sabe quando a gente tá comendo e eles ficam olhando numa vontade até o trem cair? Então, aí tá certo!

É normal que o primeiro mês seja mais difícil, não se sinta só, desamparada nem se pergunte o que está fazendo de errado. Uma vez li, não lembro onde, que o corpo (do bebê, especificamente) recusa sabores desconhecidos porque classifica como se fosse veneno. Até ali ele só esteve acostumado com o leite materno ou a fórmula, normal que ache estranho que algo venha numa nova textura, com novo sabor.

Então, começamos com as frutas de sabores mais suaves e mais líquidas para facilitar a vida da cria. Sugestões de primeiras frutas: banana, melão, melancia e beterraba. A primeira que ofereci aqui foi banana. Tirei a casca e dei na mão dele. Comeu que foi uma beleza!

O ideal é oferecer uma fruta por dia, para detectar possíveis alergias alimentares e testar as reações. É, mães, dá dó, mas não tem outro jeito mais fácil de descobrir – vamos dando e vendo como o organismo dos nossos filhotes reagem. Uma fruta por dia, a quantidade que o bebê quiser. No começo, repita essa fruta pelo menos 3 dias seguidos, para ele se familiarizar ao sabor e, se possível, sempre à mesma hora também. Assim, o bebê saberá que é a hora de comer – por exemplo, depois da primeira soneca da manhã e depois de tomar banho.

Se o bebê recusar, não force. Seja paciente. Tenhas Paciências é o nome científico da introdução alimentar (hahaha, é sério! É preciso muuuuuuita!). Recusou no primeiro dia, insiste uma vez. Não quis, insiste de novo. Não quis mesmo assim, tá de cara feia? Deixa quieto e tenta de novo amanhã. Se ele repudiar a fruta, pode trocar. Se ele aceitar, 3 dias seguidos e passa pra outra. Duas semanas depois, já pode oferecer duas frutas por dia ou duas vezes por dia.

A partir dos 7m pode introduzir a papa salgada – se você optar por papas – e outras coisas, como leguminosas. Também já pode experimentar dar dois alimentos juntos. Aqui o sucesso do mês era cenoura, abobrinha e feijão. Abóbora cabotiana bem cozida com caldo de feijão era a papa que eu dava. Cenoura dava cozida e cortava em palitos que ele pudesse segurar, comia assim mesmo (não tão macia que quebrasse ou desmanchasse quando ele segurasse).

Aos 8 meses, já comendo bem, meu filhote devorava pêssego e ameixa. Frutas in natura com casca e caroço mesmo. Aliás, o caroço era utilíssimo, pois ajudava a coçar a gengiva para os dentes que queriam nascer.

A essa idade o bebê já estará comendo melhor, provavelmente, aceitando mais vezes e comendo com vontade, sem precisar da insistência dos pais. Já pode por uma pitada de sal (pouco) na comida e talvez algum tempero mais comum, como orégano e algumas ervas. Nada forte, porque o paladar deles não é viciado como o nosso. E absolutamente nada de açúcar e alimentos super-processados e industrializados. Nada! Os três primeiros anos são essenciais na vida da criança para construir sua saúde alimentar.

E, lembre-se, depois dos 6 meses pode oferecer água pro bebê! Ele estará mais ativo, com melhor coordenação e cada vez mais atento às suas habilidades e ao seu ambiente, logo, naturalmente gastará mais energia e sentirá mais sede e fome. Não temos como adivinhar quando estão com sede – quando muito, podemos olhar a “moleira” e ver se está muito funda, é um indicativo de desidratação e sede – então temos que ir oferecendo e vendo quando ele aceita, quando quer ou não (ps: mesmo água pode demorar pra ter aceitação, é quase uma introdução alimentar à parte!).

Vou encerrar a publicação por aqui pois já está bastante grande. Espero que tenha sido esclarecedor e que as dicas ajudem! Quem quiser compartilhar experiências, posta aí nos comentários para ajudar outras mamães!

Até!

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