Maternagem e percalços: o que não nos permitimos dizer

Texto por Andreia Ribeiro*

198a28a3f1d24d3c6428ed766b824f5d

Sempre explicito sobre as maravilhas de ser mãe e o quanto a maternagem foi e ainda é a experiência mais transformadora da minha vida, gosto muito de ler os relatos sobre essa vivência maravilhosa por outras mulheres e me emociono a cada leitura, porém, sinto a ausência de textos que abordem o lado B dessa questão. Não vou me ater às angústias físicas do período pós-parto, como as dificuldades da amamentação que contradizem todas as lindas propagandas de aleitamento materno ou ainda as horas de sono perdidas e nem o período de turbulência psíquica do puerpério – o receio e a insegurança consigo mesma e/ou no relacionamento com o parceiro(a),  nos cuidados com o bebê, o se sentir feia e mal cuidada, o período de adaptação que a maioria guarda pra si com medo dos julgamentos alheios (como se explicitar essas dificuldades fosse um pecado, fosse renegar a benção de ser mãe). Refiro-me a carga que nos acompanha ao longo da vida materna, aquela que persiste e que vira a nossa companheira, simplesmente por que somos quem somos e mesmo com os diversos processos de mudança pelos quais passamos, não alcançamos o patamar de perfeição com a maternidade. Falo sobre a obrigação que a sociedade e que nós mesmas nos impomos de não nos vermos mais enquanto indivíduos independentes da maternidade.

A maternagem não é um mar de rosas, assim como todo processo transformador, é doloroso, por que por mais que queiramos renegar o egoísmo que faz parte da nossa humanidade ela nos confronta com o desafio de colocar sinceramente a responsabilidade por outro ser humano acima de nossos desejos pessoais. E isso é fácil? É claro que não. E no confronto de tudo o que nos foi ensinado versus a realidade que vivemos é de se esperar que muitas de nós se percam no caminho e que algumas acreditem que realizar bem essa tarefa é a mesma coisa que se anular enquanto indivíduo e abrir mão de tudo que somos pelo bem do nosso amor maior. Ignoramos que ao nos perder, não temos base sólida para ajudar o outro a se descobrir, a se construir, a se formar.

Outras vezes, por mais que tenhamos consciência de que o nosso papel é o de guia, o de tutor desse filho(a), é também complexo o aceitar o outro, o respeitar a autonomia, a independência de escolhas, o modo de pensar, as características da personalidade desse nosso pedaço, que fogem às regras por nós estabelecidas de maneira consciente ou inconsciente. Afinal, é sobre as mães que recaem todas as conseqüências dos percalços de seus filhos. Não é assim desde pequenos? Não é para elas que todos apontam quando crianças fazem alguma peraltice? – “Essa criança não tem mãe, nãooo?” – Então nos culpamos por todas as suas quedas.

Cobramos-nos e permitimos também que todos nos cobrem. Não nos permitimos errar e/ou dificultamos que a nossa vulnerabilidade esteja à mostra e assim contribuímos para que também os nossos filhos acreditem que toda mãe tem de ser perfeita dentro daquilo que esperam de nós e que também nos culpem pelo que já nos sentimos pressionadas.

Vou contar algo que aprendi após passar pela experiência de cobrança enquanto filha e mãe: Não somos mártires e nem temos a obrigação de ser. Antes de sermos mães somos seres humanos, indivíduos com vontade própria, desejos e necessidades e não estamos renegando amor e nem devemos nos culpar por respeitarmos as nossas particularidades. Quando percebemos isso a vida fica mais leve, fica mais leve enquanto mães e enquanto filhas, podemos em algumas circunstâncias entender que nossas mães fizeram o melhor dentro de suas limitações e vê-las da maneira que queremos ser enxergadas pelos nossos filhos: com admiração pelo que somos e não pela projeção inalcançável que a sociedade nos propõe a ser.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *