Maternidade não é prisão! Vamos falar sobre liberdade?

Fonte: http://www.scientificamerican.com/
Fonte: http://www.scientificamerican.com/

A ideia que todos passam – que nossa cultura machista, focada em jogar duplas e triplas jornadas e inúmeras responsabilidades sobre os ombros da mulher, passa – é que a maternidade é sinônimo de prisão. É abdicar da própria vida, dos próprios gostos, dos hobbies, do trabalho, dos estudos. É largar tudo e viver em função do filho: ser mãe é anular-se, nos dizem.

É verdade que tudo gira em torno das crias durante anos, porque dependem completamente de nós para tudo, incluindo mover e se alimentar. Não falam, não caçam, não comem sozinhos, não bebem água se alguém não trouxer, não andam, não sabem se proteger. O ser humano é o mais frágil dos mamíferos, o que nasce mais dependente e sem condição de sobreviver por si. Em suma, dependem de nós pra existir. Então não poderia ser de outra forma, pois é esta a ideal. A ideia original. A ordem natural: dependerem de nós.

Mas o conceito de prisão e escravidão materna não é natural! Não é propriamente um pré-requisito da natureza: ele é construído socialmente.

A relação de mãe e bebê é como o sol e a terra: a mãe-terra gira em torno do filho-sol inevitavelmente, mas simultaneamente também gira em torno de si mesma, pois só assim a natureza está em pleno funcionamento e em harmonia. Só assim a terra mantém o equilíbrio. Girar em torno do sol a mantém aquecida, ilumina suas sombras. Girar em torno de si é sua condição existencial inquestionável e imutável.

O que aconteceria se a Terra parasse de girar em torno de si?

Assim é, ou deveria ser, a maternidade. Mas milhares de anos de opressão às mulheres, fizeram-nas crer que o correto seria continuar a girar apenas em volta do filho e, perdendo aos poucos seu equilíbrio natural, elas se apagaram por completo na vastidão e no escuro. Obviamente que isso não pode trazer nada que não o caos e reflexos profundamente destrutivos.

De onde vem a ideia de aprisionamento? Por que não conseguimos diferenciar a dependência de um filho da prisão de uma mãe? Qual é a nossa referência quando estabelecemos esse quadro?

Ora, é simples. Não estamos isoladas da sociedade em que vivemos. Quando viemos ao mundo foi a nossa primeira vez, mas o mundo já existia com suas regras, culturas, dogmas, leis, ideias e modelos. E as mulheres não são o modelo desta sociedade, moldada por e para o homem. Até pouco tempo atrás, não podíamos votar, trabalhar, falar, estudar. Éramos consideradas intelectualmente inferiores aos homens pelos grandes filósofos ditadores dos pensamentos, éramos consideradas, como diria Freud, “um homem castrado”, “mutilado”. À mulher só cabia o serviço doméstico, o cuidado dos filhos e a satisfação sexual do seu parceiro. Completamente anulada na sua existência: nunca foi levado em conta suas vontades, nunca foi ouvida sua voz, nunca existiu socialmente. Apenas entre as quatro paredes de casa, que mais pareciam prisões de trabalho forçado.

Assim, a mulher saiu à luta por seus direitos. Conseguiu o voto, pôde trabalhar. Mas nunca tiraram de suas costas a responsabilidade da casa e dos filhos, a submissão ao homem da casa, provedor. Enquanto o homem trabalhava e voltava pra casa para descansar, a mulher trabalhava fora e trabalhava em casa, exercendo uma dupla jornada e, ainda hoje, recebendo menos que o homem pelo mesmo trabalho. Sobrecarregadas. Que tipo de liberdade é essa? Deram-nos a “liberdade” de trabalhar, recebendo menos, com a imposição de carregarmos ainda a jornada da casa e criar bem os filhos enquanto nossa presença era exigida lá fora, sem qualquer compensação que visasse o bem da família compreendida como um conjunto de indivíduos que influenciavam na sociedade como um todo.

Ainda hoje é assim: ser livre é concorrer com os homens, sem considerar nossas condições naturalmente divergentes, especialmente a maternidade. Ser livre é abrir mão dos filhos para vender a força de trabalho na rua enquanto ainda tem de cuidar de casa. O modelo de liberdade é masculino. Homens não gestam, não dão à luz, não amamentam, não têm o vínculo de coexistência que uma mãe tem com seu bebê. Obviamente que essa “liberdade” não leva isso em conta, pois desconhece esse universo.

A dependência não é só do filho com a mãe, mas também da mãe para com o filho. É recíproca. Na primeira infância, a mãe necessita estar em contato com seu filho, necessita dessa proximidade, vivência, de maternar, cuidar. Necessita ter a liberdade de viver esse momento. Mas não tem. Tem que abrir mão desse momento VITAL, ESSENCIAL, FUNDAMENTAL para o bebê e também para ela, para se enquadrar num conceito mutilador de liberdade que não condiz com a sua existência – nem a do seu filho. É, essencialmente, um conceito de violência para a mulher e os bebês. É parte do ciclo de violência existente numa sociedade de forças coercitivas que desconsidera por completo o ser mulher.

Este mês, estive lendo um livro chamado “Mulheres visíveis, mães invisíveis” da psicóloga junguiana Laura Gutman – escritora com PhD e vasta literatura na área de maternidade – e um trecho do livro me tocou grandemente nesse assunto, ainda mais somado à “Campanha da Maternidade” nas redes sociais e a polêmica da moça que disse amar o filho e odiar ser mãe e foi rechaçada, inclusive teve a conta do facebook bloqueada após receber vários insultos. O livro dizia o seguinte:

“Mas tem algo mais que permanece oculto no pensamento coletivo: a espontânea e íntima escuta da mãe ao chamado do recém-nascido e a intransferível conexão que cada mulher sente em respeito a seu próprio filho. Para permitir-nos reconhecer que a necessidade de permanecer junto também é nossa, nós mulheres deveríamos sentir-nos cuidadas, atendidas, apoiadas e alicerçadas. Liberdade não é depender dos próprios recursos para existir. Liberdade não é trabalho de dupla ou tripla jornada. Não somos livres quando somos expulsas ao mundo do trabalho vendo-nos obrigadas a abandonar a cria – e aceitamos como certo – enganadas com a cenoura da maternidade. Na realidade, somente somos livres quando outorgamos a possibilidade de viver a fundo cada etapa da vida. E o primeiro período da maternidade é uma muito especial. Além de tudo dura pouco tempo.”

Ser mãe e ser livre

É preciso lembrar que esse conceito de liberdade baseado no homem e adequado ao sistema político e econômico que só visa o lucro é imposto socialmente e somos educadas nele desde muito cedo. Portanto, é óbvio a enorme probabilidade de uma mulher assumir como “sua própria verdade” que aquilo seja, de fato, a liberdade pra si. É provável que ela diga desejar e de fato deseje isso. Mas não é, propriamente, um conceito dela. Não é algo verdadeiro. É o conceito dominante, imputado nela, entranhado nela de tal forma que ela já não se escuta, já não se conhece, apenas repete e reproduz o que a ensinaram tão forçadamente durante anos e anos de opressão e apagamento da sua natureza.

Até que ela compreenda isso, porém, uma luta interna gigante será travada e talvez os anos dourados da infância de seu filho e de sua maternidade já tenham passado.

Só com muita conscientização e muito aprendizado, a mulher mudará esse conceito dentro de si. Quando a mulher aceitar que os dois primeiros anos podem e devem ser de total dedicação e que isso não é prisão, pelo contrário, é extremamente positivo e necessário e também sua liberdade de ser mãe, uma condição natural de sua biologia, então será mais fácil passar pacificamente e satisfatoriamente por essa fase. Aceitar que se doar integralmente para a sua cria por um período limitado de tempo também é liberdade. A liberdade de ser mãe, de permitir que a mãe exista.

A mulher não é só mulher: ela é filha, é mãe, é avó, é trabalhadora, é estudante, é militante, é companheira. Ela tem N perfis, N faces, N existências que se satisfazem de formas diferentes. Mas a maternidade é singular, pois é biológica: parte de si, do seu instinto mais natural e deve ser ouvida com a atenção devida às condições de sobrevivência de qualquer animal. As demais são construções sociais e podem esperar, principalmente por um momento de maior respeito à existência da mulher.

Respondendo à pergunta que fiz anteriormente: o que aconteceria se a Terra parasse de girar em torno de si? Tudo morreria, gradualmente. Pela falta de calor, pela falta de luz, pela falta de equilíbrio. Pouco a pouco, todos os animais deixariam de existir, todas as plantas, todas as coisas… A mãe e a Terra tem isso em comum: é preciso, pelo bem dela e de todos, que ela mantenha o equilíbro e a harmonia, é preciso que gire em torno de si, ou todos perderão com isso.

2 thoughts on “Maternidade não é prisão! Vamos falar sobre liberdade?

  1. Adorei o texto, mas só uma correção: Laura Gutman não é psicóloga! Não fez se quer um curso de psicanálise. Não tem phd. Ela não desmente isso qdo a intitulam de psicóloga, mas se perguntarem vc é psicóloga ela diz que não. Ela disse isso em sua última palestra no Brasil que estive presente. Ou seja, escreve bem para um público alvo, é ótima vendedora de livros e boa marketeira. Abraços

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  2. Aline Rossi

    fevereiro 24th, 2016

    Gente..!! Isso é uma surpresa pra mim!
    Grata pela correção, vou arrumar isso é já! E obrigada por escrever <3

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