Não vai ficar mais fácil

Como outras milhares de mães, eu me preparei muito para o parto durante a gravidez. Lia sobre parto, fui em encontros, li relatos, vi vídeos, tomei minhas decisões, corri atrás. Me preparei física e psicologicamente, emocionalmente e trabalhei todas as minhas expectativas e energias focada nisso. E esqueci do pós-parto. Não é que o parto seja menos importante – não fosse pelo meu parto tão mágico, eu não teria virado doula –, mas o parto acaba em umas horas, um dia, uns dias… O pós-parto não.

Para ser sincera, ainda hoje me pergunto se existe mesmo um período “pós-parto”. O que é que vem após o parto, afinal? Não é a maternidade? Não há um período para a maternidade. Ela é constante, linear, contínua. E não só até o dia em que morrem nossos filhos, mas sim até o dia em que morremos. Só deixamos a maternidade quando deixamos esse mundo. Então não consigo falar de um “período pós-parto”.

Sim, há o pós-parto imediato. Isto sim! É um período confuso, anárquico, turbilhão de hormônios, sentimentos, descobertas. Descoberta da maternidade, do filho, da vida, redescoberta de si. Perdemo-nos de nós mesmas, procurando onde estava aquela vida e aquela pessoa que agora parece tão distante do que conhecêramos até ali. Não somos mais as mesmas de até agorinha, até o parto. Não somos mais. Quem somos nós? Quem é essa nova mulher no espelho que dorme em horários confusos, que não consegue tomar banho todo dia sequer, que mostra olheiras profundas, que não consegue pentear o cabelo, que pinga leite pela casa toda, que não reconhece o corpo (com o qual acabara de se adaptar e já é outro novamente, um terceiro corpo em tão pouco tempo), que não consegue comer direito, que não pode comer o que comia, que se sente cansada e sente saudades de um ser que dormiu há uma hora atrás apenas e está no cômodo ao lado? Quem é esta mulher que não somos nós de antes-do-parto?

Esta é a nova mulher que nasceu no parto. Que foi gerada na gravidez na mesma progressão do feto. Brotou, gestou, cresceu, evoluiu e se expôs após o parto, no puerpério imediato, pela primeira vez (ou segunda, ou terceira? É sempre uma outra mulher toda gestação). E olhamos aquele espelho e não a (re)conhecemos. A estranha sensação de não nos conhecer. E os choros, o cansaço, a fome, a exaustão, mas também a alegria, a energia, a curiosidade, o deslumbramento. Tudo novo de novo! E às vezes é difícil lidar com o novo. Não porque é desconhecido, mas porque imaginamos coisas sobre o desconhecido – e é isso que nos amedronta: a nossa própria imaginação.

E quando começa a crescer, pouco a pouco – e começamos nós próprias a crescer também e entender, conhecer e nos identificar com a nova mulher –, nos variados estágios de crescimento do bebê, perguntamo-nos o tempo todo quando fica mais fácil. Ansiosas pela “próxima fase”, pelo próximo mês, o próximo ano. Quando vai sustentar a cabeça, quando vai sentar, quando vai comer, quando vai andar, quando vai falar, quando vai deixar de mamar, quando vai dormir sozinho… Vivemos ansiosas para que não precisem de nós, embora não nos permitamos falar isso nestas palavras. Para que fique mais fácil, é o que pensamos.

Mas não fica. E eu, como tantas, demorei pra aprender isso. Não fica mais fácil.

Não desanime, mãe! É claro que cada conquista do bebê é sempre uma ponta de liberdade pra nós. Quando se sentam na banheira é mais fácil dar banho, mas começam a rolar e com isso aquele tombo que nos faz chorar de culpa… Quando começam a comer, é libertador, mas vem aquele cuidado com a alimentação, a bagunça e os diversos banhos por dia…  Cada fase tem os seus prós e contras. Não fica mais fácil: fica diferente. Todas as fases têm dificuldades. Assim será até o fim, somos mães, sentimos por dois. O coração que pulsa fora do peito nunca vai deixar de doer no nosso próprio. Somos nós é que evoluímos com eles e suas fases e aprendemos a lidar e nos relacionar com cada nova situação.

E isso é maravilhoso.

É maravilhoso que tenhamos fases novas para acompanhar, com complexidades diferentes para lidar e ver aquele nosso rebento crescer, se desenvolver, se formar, se personificar com alma, coração e cérebro. Maravilhoso, independente das dificuldades que passemos por isso (pois também passamos muitas alegrias com seus crescimentos). É maravilhoso que sejamos desafiadas na criação e educação de um novo ser, complexo, inteiro, diferente. É maravilhoso porque crescemos também e aprendemos também.

É maravilhoso aproveitar cada fase. Cada pedacinho, cada segundo, cada momento, cada dificuldade, cada sorriso. Maravilhoso mesmo é não perder nada disso na vontade de que eles não dependam de nós, pois quando esse dia chegar, nada mais os prenderam a nós. E, como tudo tem que ser, como foi conosco, eles voarão de nossos ninhos. E nos sobrará apenas a saudade e o arrependimento de não ter aproveitado mais na ânsia desse dia que agora pesa.

Sabe, mãe, não fica mais fácil. Nunca. Mas fica sempre melhor. Mais inteiro. Mais humano. Aproveite tudo. Não deixe a expectativa e a ansiedade tirarem esses momentos de você.

A maternidade é pra sempre.

Eu e Gio

One thought on “Não vai ficar mais fácil

  1. Achei incrível sua descrição de como foi, é e sempre será ser mãe! Realmente não tem como não pensar em tudo o que você falou Aline e, me imaginei no seu lugar. Creio que não seria muito diferente do que você falou.
    É um aprendizado contínuo esse o de criar os nossos filhos. Gostaria muito de ler um relato desses do ponto de vista do pai hehe. Será que o Rui de habilita?
    Bom, felicidades pra vocês, e que o Gio cresça e veja o quanto a mãe dele é especial e o ama!!
    Abraços querida amiga.

    [Reply]

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