O direito de escolha e o corpo feminino

Meu corpo, minha sexualidade, minha vagina, minha moral, minha vida, minha escolha. Não sua.
Meu corpo, minha sexualidade, minha vagina, minha moral, minha vida, minha escolha. Não sua.

Eu me tornei uma ativista da humanização do parto quando descobri quão alienadas as mulheres foram de seus próprios corpos, suas escolhas e suas vidas naquele que era suposto ser o momento mais maravilhoso de suas vidas. Quando me descobri grávida, tive a oportunidade de receber, através de outras ativistas, uma gama de informações que me permitiram escolher, embasada em evidências científicas e nas minhas próprias conclusões, o que eu queria e considerava melhor pra mim. Fora do contato com essas ativistas, entretanto – geralmente na fila para o atendimento do pré-natal (pelo SUS) e na sala de espera da ultrassom (particular) – o que eu encontrava, em contato com outras gestantes, eram muitas mulheres guiadas cegamente por um terceiro elemento, geralmente masculino: o médico.

Elas não tiveram acesso a todo tido de informação, como eu tive, mas apenas aquilo que os profissionais se limitaram a dar – muitas das quais eu conseguia detectar como grandes mentiras ou grandes mitos repetidos como mantras para as gestantes e que não eram enfrentados porque vinham justamente dos médicos, aqueles que deveriam “saber tudo” sobre o assunto e nos manter informadas. Dessa forma, não podia afirmar que elas de fato tivessem direito à escolha. Uma escolha se configura a uma decisão frente a X opções. Elas não tinham opções. Elas tinham aquele pacote pronto, entregue embrulhado e lacrado e a elas cabia aceitar serenamente, como o gado marcado à caminho do frigorífico. A escolha se trata, portanto, não de ter simplesmente informação, mas quantidade e qualidade de informação.

A maioria das mulheres não sabia – e não sabem – que podem escolher diferentes tipos de parto, que podem escolher onde ter o parto, como ter o parto, com quem ter o parto, em que posição ter o parto, quais procedimentos serão feitos depois do parto. Elas simplesmente não são informadas para tomarem essa decisão. E, muitas vezes, quem tem a “audácia” de tentar ir contra o que está posto – mesmo sem informação suficiente, às vezes por mero desejo ou instinto – encontra uma resistência, via de regra, carregada de violências.

O direito de escolha de como uma mulher dá a luz não se limita apenas se ela vai ter uma cesárea ou um parto vaginal, ou se ela vai receber uma epidural ou se será natural. Em muitos estados, o direito de escolher o lugar onde uma mulher dá a luz é um assunto controverso. Enquanto a taxa de mortalidade materna e infantil nos Estados Unidos continuam a crescer, legislaturas continuam a recusar a concessão de licenças para Parteiras Profissionais Certificadas, o tipo mais comum de parteira que atende partos domiciliares. E mesmo nos estados onde o parto domiciliar é legalizado, políticas hospitalares podem impedir uma mulher de ser acompanhada pela sua parteira caso ela precise ser transferida durante ou após o parto. Mulheres são ostensivamente livres para fazer a escolha – na maioria dos estados, somente o parto domiciliar atendido por parteira é ilegal –, mas a escolha muitas vezes se resume a ir para um hospital e arriscar perder sua autonomia ou planejar um parto domiciliar e perder seu advogado (e a pessoa com conhecimento médico) caso algo dê errado. (Erin Rockwell, em RH Reality Check)

E isso tudo é absurdamente chocante, pois se trata de uma escolha da mulher sobre seu próprio corpo. Sobre a sua gestação, a sua transição, o seu parto. E isso começa muito antes do parto: elas não têm o direito à escolha de serem ou não mães. Não só à escolha, elas quase não têm o direito de querer ser ou não mães.

Isso está muito além da questão de proibir ou legalizar o aborto, já que mesmo em países onde é legalizado, as mulheres relatam se sentirem pressionadas à maternidade. A mulher que não quer ser mãe quase sempre precisa se explicar e justificar quando faz essa afirmação. Quase faz um pedido de desculpas: “perdão, não quero ser mãe”. Não lhe é permitida essa escolha. Como a autora do blog Anthro Doula escreveu:

 (…) Fica a ideia que a nossa sociedade tem: que todas as mulheres deveriam ser mães ou gostariam de ser mães. A suposição feita é de que as mulheres querem ter filhos mesmo com/ou apesar de qualquer dano à si mesmas. Pesquisas mostram que as mulheres pesam essas possibilidades o tempo todo – sua sobrevivência versus a sobrevivência da prole. (…) Mulheres são mais do que as suas capacidades de serem mães. E, além disso, a maternidade biológica não é o único jeito de uma mulher poder ser mãe.

Houve um post publicado no blog Feminist Philosophers em que a autora contava sobre uma cirurgia que precisava fazer em seu trato reprodutivo e que a tornaria incapaz de ter filhos. Ela disse aos seus cirurgiões, homens, que estava pronta para fazer a cirurgia porque ela não queria ter filhos mesmo. Mas os homens cirurgiões não podiam aceitar uma coisa dessas assim e exerceram suas atitudes e poderes patriarcais:

O diretor da equipe cirúrgica aconselhou táticas para protelar a operação tanto quanto possível para que eu pudesse “tentar completar a minha família”. Que a minha família já estivesse completa não era, aparentemente, algo que eles tenham considerado.

Como os cirurgiões-homens aconselharam que ela pelo menos tentasse engravidar antes de fazer o procedimento, sua cirurgia foi adiada. Finalmente, ela teve de ir a um cirurgião diferente, uma mulher, que lhe disse “com uma franqueza refrescante”: “uma gravidez seria completamente desastrosa para o seu corpo. Será algo muito bom se acabarmos com sua fertilidade”. Acontece que aquela espera, que a autora não desejava, levou à necessidade de uma cirurgia muito mais perigosa.

Isso aconteceu nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil, por exemplo, a laqueadura – ligação das trompas uterinas para não ter mais filhos – não pode ser feita só com o pedido da mulher. O marido deve assinar uma autorização para que a cirurgia seja feita. Afinal, a decisão de não querer ter mais filhos não tem nada a ver com a mulher que carrega e dá à luz, não é mesmo?

É por essas e outras que eu, enquanto mulher, enquanto feminista e enquanto ativista do parto, sou pró-escolha. Nem todas as minhas colegas que lutam pela humanização do parto são pró-escolha no que se refere à maternidade, apesar de o serem para as questões do onde e como nascer. Deixo aqui uma lista traduzida da blogueira Arwyn, do site Raising my Boychick, em que ela descreveu uma série de motivos dos porquês dela ser pró-escolha:

Eu sou pró-escolha porque sem o direito e a capacidade de dizer não, nós perdemos a capacidade de dizer sim.

Eu sou pró-escolha porque toda criança deveria ter o direito de ser uma criança desejada, independente da sua concepção ter sido ou não planejada.

Eu sou pró-escolha porque a maternidade/paternidade é extremamente dura para que qualquer pessoa seja forçada a isto.

Eu sou pró-escolha porque pessoas com úteros são, adivinha, pessoas!, e capazes de tomar suas próprias decisões.

Eu sou pró-escolha porque não tem como proibir o aborto sem aumentar as taxas de mortalidade das mulheres.

Eu sou pró-escolha porque, intencionais ou não, os resultados da proibição do aborto são misóginos e reificam o patriarcado.

Eu sou pró-escolha porque minha opinião é irrelevante na decisão de qualquer pessoa – e sua opinião é irrelevante para as minhas.

Eu sou pró-escolha porque é sobre muito mais do que o aborto: não só se, mas quando, onde e com quem nascer.

Eu sou pró-escolha porque é sobre muito mais do que gravidez: se e quando e como fazer essa transição, se e quando e com quem fazer sexo.

Eu sou pró-escolha porque nascer é, de longe, mais seguro do que nós pensamos – e o aborto, quando legal, o é ainda mais.

Eu sou pró-escolha porque uma “escolha” forçada – parir ou abortar – não é de fato uma escolha.

Eu sou pró-escolha porque eu me recuso a te dizer o que fazer com seu corpo e desejo o mesmo direito estendido à mim.

Eu sou pró-escolha porque numa sociedade pró-escolha, uma pessoa pode ser contra o aborto para si mesma, mas numa sociedade anti-aborto, ela não tem permissão de escolher.

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