O grito no parto

Gritar vem do latim “critare” (vulg.) ou “quirito”, que significa chamar, invocar. Na natureza, todos têm um grito de força, principalmente os grandes felinos, os quais até paralisam suas presas antes de atacá-las.

O grito está presente como forma de expressão para todos os animais que possam vocalizar, incluindo nós, humanos e humanas – que às vezes gritamos também com os olhos e os gestos quando a voz é inibida.

Já ouviram os gritos poderosos dos lutadores de artes marciais japonesas? É o “KIAI”, uma expressão que se refere à exteriorização da energia corporal, que nasceria do baixo ventre e sobe com a força impelida pelo lutador até que exploda boca afora: KIAI! Pode ser dado para assustar o seu oponente, no início de uma atividade ou no seu fim, consagrando a explosão de força. Os gritos também servem para aumentar, acelerar e expor a força do lutador.

Portanto, o grito não é só relacionado ao medo ou à dor. Na verdade, é principalmente relacionado à força e poder. Por isso tantos povos têm “gritos de guerra”.

E no parto? Ah…

Às vezes, as mulheres me procuram, pois têm medo de parir nas salas coletivas dos hospitais públicos por causa dos gritos. E, como sempre digo para essas mulheres, direi a todas que me lerem: não tenha medo do grito das mulheres ao parir. Tenha medo do silêncio.

Não do silêncio voluntário: há mulheres que dão à luz sem proferir uma palavra, faz parte de suas personalidades. Estou falando do silêncio imposto, obrigatório. Onde as mulheres, mesmo desejando, não podem gritar, falar, não são ouvidas. Vocalizar é importante! É um modo de dar vazão à dor e ganhar forças!

11167805_1619486241602494_6822471333183148348_o

Os gritos que ouço nos partos são semelhantes aos gritos dos lutadores que aplicam toda sua técnica, força e espírito num golpe e vocalizam na sua explosão: “KIAI”! São poderosos e animalescos. Não vêm da garganta, mas de um lugar muito mais profundo. Não nomearei este lugar, cada qual dirá conforme sua cultura e crença: espírito? alma? inconsciente?

Não importa, é das entranhas da mulher que vem o grito, consolidando toda a força que ela demonstra ao parir como exímia mamífera.

Ina May Gaskin, parteira certificada, pesquisadora e escritora com muitos anos de chão, revolucionou a obstetrícia com sua “lei dos esfíncteres”. Segundo suas observações, o útero e o colo do útero têm um comportamento semelhante ao dos esfíncteres como a bexiga, o reto e o ânus – músculos que retêm algo até que um estímulo cause a sua abertura e a libertação do seu conteúdo.

Estes órgãos bem como o útero e a vagina, funcionam melhor sob certas circunstancias como:

(1) ambientes íntimos, calmos e em privacidade;

(2) não respondem a comandos ou ordens;

(3) podem fechar involuntariamente se a pessoa se sente ameaçada, embaraçada ou perturbada;

(4) o relaxamento dos maxilares está ligado ao relaxamento dos músculos da vagina e ânus – o riso é uma das melhores maneiras de relaxar estes músculos; portanto, boca aberta = vagina aberta!

(5) em situações de stress os músculos dos esfíncteres tornam-se tensos.

Isso mostra como o ambiente em que a mulher está, a forma como é tratada e a sua condição psicoemocional afetam o trabalho de parto. Mostra também a ligação direta entre a boca e o canal vaginal: boca aberta, vagina aberta. Boca fechada…?

Por isso repito: não tenha medo de lugares onde as mulheres gritam ao parir. Tenha medo de lugares onde elas não possam gritar. O silêncio reina no império das cesárias, onde a mulher está sempre sob o efeito de drogas sedativas e, numa leitura semiótica, vulnerável e submissa à equipe médica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *