O parto da bruxa: de volta das fogueiras

É como se estivéssemos constantemente apagadas, aquelas que buscamos a liberdade, a solidariedade e a autogestão de nossas vidas. A história nos negou sexualmente, começando pela religião e seu grande mito da maçã, o começo histórico de todo um universo de culpa delegada a este ser errante, a este homem mutilado, como nos chamou Aristóteles. A este sexo que não existe, como afirma empiricamente Freud. É assim que nos tem etiquetado, como nos tem temido, como nos tem odiado por sermos belas, sábias, bruxas e livres. (…) Uma realidade garantida pelo poder religioso e médico, a mulher se vê hoje despojada de todo o conhecimento de seu corpo, não é capaz de se autossatisfazer nem sequer de se reconhecer. Não entendemos o que se passa conosco e, por outro lado, odiamos nossos corpos, seja por desconformidade ou por “problemas” menstruais e menopáusicos, agravados por uma sobredose descarada de hormônios desnecessários. (Manual Introductorio a la Ginecologia Natural)

 

A mulher vem de um processo histórico de anulação, submissão, negação da sua natureza e das suas vontades e adequação social e moral. Aquela mulher que era fonte de cura e sabedoria, que sabia manipular as ervas, conhecia os rituais de vida e de morte, era respeitada e temida pelo seu conhecimento e se conhecia suficientemente para ser autônoma e ajudar outras mulheres, foi jogada na fogueira da Santa Inquisição. A serpente, símbolo da sua sexualidade, foi colocada como “o inimigo” na nova religião. Seu conhecimento de cura foi chamado de magia negra. E sua voz foi silenciada.

Da posição de mãe-sábia, portadora de conhecimentos profundos, a mulher passou à dona de casa, submissa ao marido, anulada pela religião e pela sociedade patriarcal. Seu conhecimento do corpo foi considerado pecado, uma vergonha, e ela afastou-se dele, enojada, inconformada e envergonhada; seu conhecimento da cura foi passado aos homens na medicina, não sábios, mas inteligentes: só eles tinham o direito de estudar e adquirir conhecimentos, logo, eram os únicos que dominavam o saber e tinham, assim, o controle sobre as enfermidades e sobre a vida de todos, principalmente das mulheres.

É dessa alienação total de si, do seu corpo, do seu espírito e da sua natureza que a mulher atual luta para se libertar – ainda não todas, infelizmente. São milhares de anos de carga patriarcal, condenatória e negativas que ela tem que desconstruir diariamente. Incluindo no parto.

Quando engravida, a mulher carrega em si o próprio mistério da vida. Gera e gesta outra vida dentro de seu próprio corpo – que ela desconhece! Ela não conhece, não compreende, não toca, mal vê, aprendeu a não gostar de seu corpo. E agora precisa encará-lo.

A mulher que não conhece seu corpo não tem propriamente escolhas em relação ao seu parto e ao nascimento de seu filho, um evento fisiológico que acontece nela própria. Mas não só. Mais que isso: levadas a acreditar que à medicina cabe todo o conhecimento do físico, fisiológico e biológico, o parto ficou renegado apenas a isto, que é pouco, muito pouco, perto da sua dimensão. Muito além do corpo, o parto acontece na mente, no espírito. É um evento que causa transformações profundas na mulher: na sua identidade, no seu corpo, no seu sentir, seu pensar. Ele acontece no corpo, na mente e em dimensões que não sei nomear. Como, porém, a mulher poderia vivenciar isso se tanto não se (re)conhece mais, como quando o parto está legado, majoritariamente (até então), a homens?

Quando iniciei meu caminho de doula, mesmo sabendo da importância do apoio emocional e psicológico, achava que minha principal função era informar a mulher, dar-lhe as evidências científicos e prepara-la fisicamente. Estava focada no material, pois sabia que a luta no cenário da obstetrícia é muito pesada. Hoje sei que isso não é tudo. Aliás, não é quase nada.

Claro que a informação é importantíssima: sem informações não há escolha. A mulher precisa conhecer o processo e o que significa cada um daqueles procedimentos pra compreender como aquilo a afeta e o que faz bem ou mal para si e para o bebê. Mas muito além disso: a mulher precisa se preparar psicologicamente e emocionalmente para o parto. 40 a 42 semanas de gestação é um período curto para desconstruir milênios de sufocamento de sua natureza, da anulação da sua existência. 42 semanas para retomar sua confiança, reencontrar sua força, seu poder, reconhecer o seu corpo e fazer as pazes, apesar da mitigação cultural e midiática.

E é isso que vai fazer a diferença no parto. São milhares de anos que nos tentam convencer que somos o sexo frágil, mais fracas, menos capazes, tentando apagar as nossas capacidades. Muitas acreditaram, depois de tanto martelarem na sua mente, tanto apararem seus ramos e folhas verdes. Mas a raiz está lá, profunda e viva.

Mulheres me procuram porque querem ter um parto natural, sem intervenções e sem violência. Querem ser respeitadas, querem fazer suas escolhas, querem que seja como manda a natureza. Mas não acreditam na sua própria natureza. Têm medo do bebê grande demais para o próprio corpo que o gestou, têm medo de não ter leite, têm medo da dor, têm medo de não conseguir, têm medo de ser fraca… Medo, medo. Um medo que não nasce delas, mas lhes foi atribuído e implantado. Pelas novelas e filmes, onde todas sofrem, gritam, descabelam e quase morrem. Um medo fundado nas histórias da prima de segundo grau da vizinha da avó do primo de fulano… Um medo imposto por homens que nunca pariram e nunca vão parir falando sobre a dor do parto, a perda do filho, a sua incapacidade, colocando defeitos no seu corpo que, na verdade, é como quem diz “você é fraca”.

Deixe para os homens aquilo que inventaram: a intervenção para quando se é necessário. Se não for, deixe a natureza fazer o que faz de melhor: fluir em perfeição.

O medo é de fora pra dentro.
Sua força é de dentro pra fora.
Encontre-a!
Confie em você e no seu corpo.
Confie no seu bebê.
Na sua natureza.

Reencontre a bruxa jogada na fogueira por homens religiosos e poderosos que temiam o seu conhecimento e o seu potencial de mulher. Renasça a mulher sábia, conhecedora, conectada, selvagem, intuitiva. Confie. Entregue. E seu parto acontecerá.

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