O primeiro aniversário

É uma convenção social que o aniversário de um ano é algo especial. O bebê completou um ano nesse mundo e nesse ano muita coisa mudou: aprendeu a rolar, sentar, engatinhar, ficar em pé, comer, talvez até a andar sozinho. Mas o bebê não sabe contar o tempo nem sabe o que é festa. Essa comemoração não é do bebê, é dos pais. Principalmente para os de primeira viagem. Foi o primeiro ano da mulher como mãe, um ano de muitas mudanças em sua mente, seu corpo, sua rotina, suas emoções. Foi o primeiro ano do homem como pai – isso para os pais presentes, claro – e também trouxe mudanças. É a comemoração de um ano de ruptura com o antigo modo de vida. Para a mulher, o antigo ciclo de vida: ela não é mais “só mulher”, ela é mãe.

Entretanto, quando escolhem comemorar esses doze meses de mudanças, parecem que desconsideram por completo um personagem essencial: o aniversariante. A festa, que ele não sabe o que e como é, é feita ao modo dos adultos e conforme seus costumes.

Créditos: Amanda Raiola
Créditos: Amanda Raiola

Foi programando a festa do meu filho que descobri como aniversários criaram verdadeiras indústrias. Um mercado todo voltado para isso! E esse mercado pode ser de um luxo que nem imaginava (pelo menos pro evento que é e para aquilo que já foi). Decorações extravagantes sobre coisas que a criança nem se importa, locação de espaços gigantescos e caros, contratação de buffet com seus trocentos empregados, as diversas e personalizadas lembrancinhas, preocupação com a comida (entrada, principal, sobremesa, mesa de doces e bolo) e bebida (chegam a servir álcool em festa de um ano, oi??? Não só é absurdo pelo fato de a criança não beber, mas pelo fato de permitir que adultos se alterem em seu estado normal à frente de seus filhos!), animadores de festa, aluguel de móveis. Parece uma formatura de faculdade, mas é só a festa de um ano de um bebê que não faz questão disso tudo, não entende isso tudo e, via de regra, não está confortável com isso tudo.

Como ele ainda não se comunica, o bebê ainda não tem seu círculo de amigos, obviamente. A sua festa então, não bastando ser um ambiente desconhecido, desconfortável e artificial, está também cheia de gente que ele não sabe quem é. E que vai querer pegá-lo, beijá-lo, abraça-lo, tirar foto, sacudi-lo, como se fosse a coisa mais normal do mundo darmos nossos filhos nos braços de outra pessoa com quem ele não tem vínculos afetivos (ele que aguente, não é nada demais!). Permitir que rode de braço em braço sem sequer estar bem com isso. Ignoramos veementemente seu bem estar e conforto para que a nossa convenção ande nos conforme e satisfaça nossa vaidade velada de “comemoração”.

A festa perdeu o caráter acolhedor e familiar que tinha. Não quero ser uma saudosista chata, mas nos idos de ‘90 as festas eram feitas em casa, com a família se empenhando em fazer os docinhos, as comidas, as bebidas, escolher o som. Não quer dizer que não pecasse, como as de agora, nos quesitos casa cheia de gente desconhecida, barulho excessivo para um bebê dessa idade, confusão, ambiente para adultos. Mas tem seu mérito ao ser algo produzido pela família, coisas em que elas depositam seu tempo e carinho confeccionando para o aniversariante, além de estar num ambiente conhecido pela criança, o que já conta grandemente.

Fazendo a festa do meu filho, eu aprendi, enfim, que se fosse fazer algo realmente para ele e pensando nele, seria inteiramente diferente da festa que eu fiz e das festas que fazem (e olha que minha festa devia ter 30 pessoas no máximo, sem buffet, sem animador, sem decoração artificial de desenhos da mídia). Para a próxima, talvez fosse melhor leva-lo num lugar bem espaçoso, onde ele pudesse se movimentar à vontade – é disso que as crianças de 1 a 2 anos precisam: movimento!, elas estão se desenvolvendo e aspiram por isso, mas nas festas artificiais só ficam de braço em braço, pois não tem espaço para si e precisam satisfazer os adultos – com muuuuuuita coisa para explorar, mexer, fuçar, bagunçar e coisas simples que ele queira epossa comer – não aquele monte de açúcar em doses diabéticas das festas tradicionais – e que gaste o tempo que quiser gastar, não o tempo que delimitamos (normalmente, as crianças já estão cansadas e emburradas ao fim de suas festas, que se prolongam pr’além do que seu pequeno corpo consegue suportar).

A parte mais difícil, me parece, é que o adulto consiga deixar sua vaidade de lado, suas próprias vontades de lado, para dar lugar à criança, para que ela possa comemorar seu primeiro ano do jeito apropriado para ela e não do jeito apropriado para os pais. Menos cansativo, menos dispendioso e muito mais proveitoso!

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