Quando o leite não é suficiente

Créditos: AnthroDoula
Créditos: AnthroDoula
Esse artigo foi publicado pela antropóloga Veronica Miranda na revista mais recente do Conselho de Antropologia e Reprodução. Nesse texto, ela reflete sobre seu tempo em Yucatan enquanto estava amamentando e conduzindo uma pesquisa de campo. *Retirado do blog AnthroDoula, traduzido livremente por Aline Rossi.

Quando o leite não é suficiente

Era uma tarde quente e úmida de Julho quando decidi pagar uma visita a uma das parteiras da vila. Peguei minha já preparada bolsa de pesquisa e, a caminho da saída, disse “adeus” para o meu marido (a.k.a: assistente de campo e babá) e beijei nosso filho de três meses. Era aproximadamente 15hs quando saí. O calor ainda estava insuportável enquanto eu andava pela vila rural de Yucatec Maya Pueblo de Saban, localizada n interior sudeste da península.

Quando cheguei à casa da parteira, estava morrendo de calor,suada e com sede. Fui escoltada pela filha da parteira para a grande recém-construída cozinha de telhado de palha que ficava atrás da casa. Elda, a parteira, estava fazendo o almoço quando cheguei. Ela me convidou para sentar e comer com sua família. Tivemos um simples, mas delicioso almoço.

Elda serviu uma sopa rala de Chaya fervida (uma folha verde escura rica em cálcio e ácido fólico) misturada com sementes de abóboras, sal marinho, e um generoso esguicho de suco de limão. Seu filho tinha pego alguns abacates das árvores do quintal e fez uma grande tigela de guacamole. E como todas as refeições no pueblo, nosso almoço foi acompanhado por tortilhas de milho que tinham acabado de ser feitas à mão! Eu me servi duas vezes e saboreei cada mordida.

Ela estava feliz pore u ter gostado de sua comida e disse que eu devia estar sempre com fome pore star amamentando. Ela me disse que estava frequentemente comendo quando amamentava seus filhos muitos anos atrás. Eu a perguntei se ela amamentara exclusivamente no peito os três filhos – duas meninas e um menino. Ela disse que sim. Na verdade, o filho dela, caçula, era o maior de todos. Ele era tão grande que muitas pessoas pensavam que ele tinha um ano de idade quando tinha apenas 6 meses. Nós já tínhamos tido muitas conversas no passado sobre a importância da amamentação para a mãe e o bebê. Ainda assim, naquele momento, tive que fazer a ela uma pergunta que vinha me incomodando há algum tempo. Eu perguntei: “Elda, se eu estou fazendo amamentação exclusiva com meu bebê e ele é, visivelmente, um bebê grande e saudável, por que tantas pessoas na comunidade continuam me dizendo que eu preciso complementar com fórmula? Por que dizem que ele precisa mais do que só o leite?

Elda pensou um momento sobre o que eu havia acabado de dizer e depois me perguntou se meu filho chorava muito. Como mãe de primeira viagem e afastada do meu próprio suporte familiar, eu não tinha certeza de quanto um bebê chorava. Meu filho chorava sim muitas vezes durante o dia e a noite, mas normalmente eu conseguia acalmá-lo com a amamentação. Desde o dia em que nasceu, eu amamentei meu filho em livre demanda – mesmo aos oito meses ele era inflexível em mamar duas a quatro horas. Por fim, respondi a pergunta de Elda dizendo “sim, ele chora um pouquinho”. Seu filho adolescente estava intrigado com a nossa conversa e me perguntou se meu bebê tinha ar na barriga. Assumindo que isso era similar às cólicas, expliquei que isso costumava ser um problema, mas agora não mais. Elda sugeriu que ele pudesse ter mal de ojo (mal olhado). Mas ela estava se inclinando mais pra ideia de que eu talvez não estivesse produzindo leite suficiente. Ela perguntou se meu leite era suave ou forte quando vazava pela blusa. Parei por um momento – ninguém nunca me perguntara isso antes. Ela estava se referindo ao fluxo do meu leite ou à espessura? Provavelmente nunca saberei, já que não lhe pedi que explicasse. Não entendendo completamente a pergunta, eu disse que achava que meu leite era suave.

Ela disse que era isso. Meu filho chorava muito porque ele estava com fome, ela explicou. Meu leite era muito fraco e não estava satisfazendo. Perguntei o que eu poderia fazer para arrumar isso e ela respondeu que “geralmente, se a mãe tem leite fraco, aproximadamente um mês depois que o bebê nasce, dizem-na para beber bastante água de Chaya, ferver folhas de laranja e coloca-las sobre os seios e tomar banho quente com a água do chá. A mãe não deve sair por três dias, principalmente se estiver nublado lá fora. Isso vai ajudar a aumentar a produção de leite e torná-lo mais forte”. Infelizmente, perdi a minha chance. Meu filho estava com quase 4 meses e minha melhor opção agora era complementar com fórmula.

Pensei nessa conversa com Elda todo o resto do tempo que estive em campo. Há apenas uma geração atrás, as mulheres da comunidade amamentavam exclusivamente. A senhora de meia-idade que disse que eu deveria complementar com fórmula tinha amamentado suas crianças exclusivamente no seio. As mulheres sempre amamentaram. A amamentação continua a ser largamente praticada pelas comunidades. Como Elda mostrou, as curandeiras e parteiras locais usavam receitas tradicionais passadas das antigas gerações para ajudar a mãe a aumentar a produção de leite e acalmar o bebê que está chorando. Mas os tempos mudaram; hoje, a amamentação não é mais vista como o bastante. Muitas mulheres acreditam piamente que o bebê precisa ser suplementado com fórmula. A ideia de que a medicina tradicional não é mais capaz de ajudar as mulheres a produzir leite suficiente para alimentar seus bebês é relativamente nova. A fórmula, para muitas mulheres, provê os nutrientes necessários que os bebês precisam receber. Essas crenças são inculcadas através do aconselhamento dos médicos e enfermeiros e reforçados pela grande mídia e campanhas de saúde pública. Hoje, a mairia das novas mães acreditam que seus bebês seriam mais saudáveis e mais felizes se eles tivessem ambos o leite e a fórmula.

Há uma grande variedade de literature que explica por quê indínegas e/ou mulheres pobres escolhem usar fórmula para bebês. Algumas razões incluem 1) a crença nas mensagens da mídia corporativa que proclamam benefícios superiores para a saúde com o uso da fórmula; 2) internalização das mulheres indígenas de que seus corpos são inadequados; 3) um aumento no status social com o uso de fórmulas caras; e 4) a adoção da ideia por indígenas e/ou mães pobres que elas são mães melhores ao oferecerem fórmulas para suas crianças. Eu sabia de tudo isso que acontecia na minha área de atuação. Eu li a literatura e estudei a história política e econômica que tinha afetado e moldado as escolhas da mulher rural. Ainda assim, foi só quando senti na pele a questão da suplementação com fórmula que tive um melhor entendimento das muitas formas que as mulheres tratam diariamente a saúde de seus filhos. Como uma jovem pesquisadora ansiosa por aplicar o conhecimento acadêmico que tinha adquirido, escolhi concentrar fortemente na questão da amamentação vs fórmula infantil. Mas eu estava errada.

Depois de muitas conversas com as mulheres da comunidade, eu finalmente estava apta a ouvi-las e entender que elas não viam ambas como binárias. Demorou muito para que eu percebesse que as mulheres que estavam me sugerindo a suplementação com fórmula estavam tentando me ajudar a lidar com uma situação e tratar um sintoma específico – um bebê que está chorando. Essas mulheres rurais de Yucatec Maya são bombardeadas com constantes mensagens dos médicos e dos media que seus corpos são insuficientes para suprir as necessidades de seus fetos e suas crianças pequenas. Tal como acontece com o parto, essas mulheres não abordado sua saúde e a saúde de seus filhos pela/através dessa dicotomia. As mulheres estão tentando aproveitar ao máximo todos os recursos que têm e misturando práticas para assegurar o bem-estar de seus filhos.

Foi chocante perceber quão forte as mensagens externas de inadequação do corpo da mulher afetaram suas crenças, sim, mas mesmo assim elas estão tentando encontra o melhor jeito de criar crianças saudáveis e felizes.

* Veronica Miranda é doutoranda de Medicina Antropológica da Universidade de Kentucky.
Sua dissertação de pesquisa foca em como as mulheres rurais, parteiras e assistentes de saúde de Yucatec Maya participam na produção de práticas para o parto em relação às políticas de saúde e programas federais.

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