Parto sem pudor

Foto de um parto natural auto assistido, na Alemanha, feito à beira do rio.
Foto de um parto natural auto assistido, na Alemanha, feito à beira do rio.

O parto é um grande acontecimento. Não é só um evento fisiológico, curso natural do corpo, mas também sagrado, curso natural da mente e do espírito: é um rito de iniciação da mulher, que passa da figura de filha para mãe. E muitas idealizam e romantizam esse momento durante toda a gravidez: o parto como querem, o parto perfeito, a chegada do bebê. Podemos idealizar tudo, imaginar mil coisas, ler mil coisas, mas o fato é que é muito difícil nos despir dos nossos próprios preconceitos, tabus e pudores. Isso vale pro parto.

Hoje, depois de passar pela minha primeira experiência de parto e ter estudado para doular, tenho uma visão diferente do parto e da mulher no parto. É um encontro com o que há de mais animalesco em nós – não no mal sentido, mas no melhor: estamos ali com tudo à flor da pele, plenamente naturais e entregues à nossa natureza animal, ao nosso instinto, despidas de civilização. Claramente, isso não é regra. Algumas mulheres não tem essa oportunidade – as que são dopadas para o parto, as que sofrem violências demais durante o parto, as que sofrem uma cesárea sem chance de passar por todo o trabalho de parto…

É preciso conseguir se despir dos preconceitos sociais, culturais e pessoais, dos nossos próprios tabus e isso é muito complicado. Eu mesma, enquanto passava pela dilatação, enquanto ainda não estava na “Partolândia”, lembro de que queria ficar embaixo do chuveiro e minha doula vinha perguntar se estava tudo bem, eu só pensava em “não quero que ela fique me vendo nua”. Ora, que grande bobagem! Agora rio muito, mas na altura me preocupava. Vi a fotógrafa chegar e não queria sair do chuveiro para dar oi, porque também não queria que ela me visse nua! Logo num momento que fazia parte do meu ciclo sexual, que coisa mais bestona! Rs

Entretanto, antes de tudo isso acontecer, ainda na gestação, eu pensava: “não vou querer usar roupas no meu parto, quero estar livre e solta, receber meu filho pele a pele, da forma mais natural que somos; eu também vim nua ao mundo”. Mas lá, ainda muito apegada ao material, ainda não despida dos meus pudores, meus tabus e preconceitos, ainda envergonhada e segurando a linha muito tênue que divide o parto enquanto experiência física e experiência sagrada, ali eu não queria me mostrar nua.

Isso depois foi passando. Conforme as contrações aumentavam e as ondas de dor vinham mais próximas e mais intensas, fui abandonando esse tipo de preocupação. Gradualmente vamos saindo do material pro imaterial, parece loucura, mas é algo assim mesmo. Vamos deixando nosso consciente e passando pro subconsciente, pruma dimensão muito mais profunda e assim essas pequenas bobagens vão ficando de lado. Eu já andava sem calcinha muito à vontade, isso era a última coisa que me preocupava.

Mas certos tabus são muito enraizados. Naturalmente, a história da mulher na sociedade é uma história de opressão, de vergonha do próprio corpo, desconhecimento do próprio corpo, onde o certo é se esconder, se apagar. Não pensem que isso não está presente também no nosso parto – daí a necessidade de empoderamento. E, se tinha passado a vergonha de estar nua, estava presente uma outra coisa: a vergonha do cocô.

Isso mesmo, cocô. E sei que não sou a única. Outras vieram me perguntar: é verdade que fazemos cocô quando parimos? Eu também tinha medo disso. Fazer cocô na frente delas? Que horror! O cocô é uma coisa tão suja (na verdade, é muito natural, tanto quanto respirar, mas preconizamos a ideia de sujeira a vida toda…)! É verdade sim! Não sei se pra todas, mas certamente pra maioria.

E por quê? Porque o puxo, a contração que vem pra fazer descer o bebê, é a mesma daquela que o corpo faz para evacuar. A mesmíssima. Por isso, durante a dilatação parecia que tinha que ir no banheiro o tempo todo. Por isso, de vez em quando, saía sim cocô. Não é cocô igual todo dia, mas é um resquício de cocô. Algumas fazem lavagem intestinal antes do parto para evitar esse constrangimento, mas a não ser que você realmente precise – como alguém que tem intestino ressecado e não faz cocô a tantos dias – não tem porque passar por essa coisa que, me parece, é super desconfortável e desagradável. Não são mooooooontes de cocô. São cocôs, só cocôs. Pouquinhos, isso aí. Sem nojinho. Toda a equipe sabe da probabilidade de 99,99999% de você fazer e não estão nem aí. Sua doula provavelmente já até treinou e levou luvas para limpar, é verdade.

Não tem porque ter nojo de uma condição natural do corpo. Não tem porque aceitar esse tabu higienista num processo que leva naturalmente àquilo, que todo mundo sabe, que todo mundo conhece e que todo mundo espera.

Dispa-se, então, você mulher gestante, dessa vergonha. Tire o corpo fora desse tabu, nosso corpo, animal, nosso instinto, nosso momento de mamíferas não aceita nojinhos, não aceita preconceitos sociais, higienismos culturais. Precisamos estar livres para obter o máximo possível dessa experiência maravilhosa. E não é por causa de um cocozinho que vamos perder, né?

Tabu, tabu, parto à parte. Esqueça o medo e essas ideias bobas. Parir sem medo e sem vergonha. Lembre-se que antes de tudo, antes de sermos mulheres em sociedade, somos animais. Somos mamíferas. E isso não é vergonha nenhuma.

 

One thought on “Parto sem pudor

  1. Pela primeira vez leio um texto que fala explicitamente sobre o cocô na hora do parto. Já li dezenas de relatos mas nenhum citava que saía cocô, mas já tinha lido textos como o seu de que pode sim sair na hora, mas ngm fala se saiu ou não. 😛

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