Relato de doula – A chegada da Clara

Hoje meu relato é especial, porque alguém especial pariu e foi um parto especial!

Eu a conheci através de um amigo em comum. Amigo meu que é machista, por menos que queira, e assim, batendo boca no facebook dele, nos adicionamos e ficamos amigas. Não a conhecia pessoalmente, mas sabia que existia um sentimento recíproco de proximidade e de amizade, tínhamos gostos parecidos! Duas “feminazis”, pro azar do nosso amigo. Foi quando, na virada de ano, vi a publicação dela de que estava esperando um bebê.

Ela veio conversar comigo, disse que queria ter um parto humanizado por causa das minhas publicações. Nunca tinha se atentado a isso, mas que as minhas postagens fizeram ela perceber a diferença e a importância. Lembro dela dizer “continue gritando para mais mulheres ouvirem!”. Ela queria um parto domiciliar e disse que gostaria que eu acompanhasse. Fiquei muito feliz! Em Abril formei como doula e no decorrer do ano acompanhei outros partos, enquanto a gestação dela seguia seu curso. Encontrou a equipe de parto domiciliar – a mesma que tinha feito o meu, aliás – e foi lendo cada vez mais sobre, tornando-se uma militante e ativista da humanização, como era inevitável.

Andréia foi uma mulher que realmente se empoderou! Digo isso porque vemos muitos casos de mulheres que leem, leem, leem – artigos, pesquisas, publicações, veem vídeos, assistem documentários – mas não se empoderam. Fica só ali, na superfície. A confiança na fisiologia ainda não está alicerçada e isso fica visível no momento do parto. E no parto de Andréia, foi visível o seu empoderamento!

Na reta final, tudo estava circulado de insegurança e ansiedade. Às 41s, fora avisada que a sua equipe não atenderia domiciliar depois das 42s. A obstetriz backup também não. O plano B era SUS. Acontece que já esperávamos uma gravidez prolongada, pois fora assim na primeira vez! Sua primeira gravidez, há sete anos atrás, fora até as 42s. Mas foi roubada! Caiu na cesárea no dia que seu trabalho de parto estava começando, por um servidor do hospital que, ao ouvir a idade gestacional, sentenciara – sem qualquer teste – que o bebê estava em sofrimento fetal. Cesárea. SUS com cesárea anterior e mais de 40 semanas, eu sabia o que viria… Mas dessa vez seria diferente!

Eu não imaginava Andréia parindo em outro lugar que não em casa. Andréia não se via parindo em outro lugar que não em casa. Mesmo passando de 41s, ela me dizia se sentir bem e sabia que a Clara estava bem. Falou comigo no sábado, preocupada com isso, porque uma das parteiras da equipe viajava na segunda-feira e a outra na quarta. Na sexta-feira ela completaria 42s e estaria sem ninguém que atendesse, mesmo estando saudável, numa gestação perfeita e sentindo que sua bebê estava bem. A frustração era grande, falavam de uma indução por deslocamento de membrana na segunda-feira com um médico respeitado e humanizado da região, que dizia não ter horário pra ela.

Então, marcamos uma pajelança no domingo. Um chá de bênçãos ateu (hahah!) para relaxá-la e tentar uma indução natural, não invasiva e mais calma com água quente, chá e muito amor! Mas eis que às 5h da manhã tinha mensagem no meu celular da irmã dela dizendo: “venham todos, a Andreia está em tp”. Bebês  Como amo bebês subversivos! Nossa pequena feminista sabia seu tempo de nascer e não ia se deixar ditar por ninguém, nem doula nem médico!

Na bem da verdade, só vi a mensagem às 8h, porque estava sem celular. Ela me disse que as contrações estavam de 3 em 3 minutos e, como moro relativamente longe, tomei meu café da manhã às pressas, peguei minhas coisas e fui pra casa dela!

Quando cheguei, a parteira Maria José já estava lá. Tudo tranquilo, ainda não era trabalho de parto ativo. Fase latente. A mãe e a irmã também estavam, além do marido e o filho mais velho. Ficamos conversando e rindo, assistindo NetFlix rs. Andréia estava bem, agia normalmente, se calava durante as contrações e só. Até marcamos durante um tempo, mas percebendo que não estavam ritmadas, deixamos de lado e resolvemos esperar. Até assistimos um documentário, ouvimos música, almoçamos. As contrações já estavam mais fortes, mais ainda sem ritmo. Percebia pelo rosto dela, mas Andréia continuava super tranquila.

Às 13h, as contrações já estavam mais fortes e às 13:30 a bolsa rompeu. Aí o negócio engrenou e ficou bonito! Ela abraçou o marido, que estivera conosco o tempo todo, até tomou uma cerva em determinada altura. E pela expressão dela e as suas maneiras, eu soube que aquele parto seria muito intenso! Muito mesmo!

O parto é o fecho do ciclo sexual da mulher, é parte da sua vida sexual, tão ou mais íntimo que o sexo. Daí a minha resistência quando tanta gente pede pra assistir o parto de alguém sem ser convidado (eu mesma dei muitos puxões de orelhas nos meus amigos quando era minha vez). É como pedir pra assistir alguém fazendo sexo! Muito voyeur!

A coisa era tão intensa, tão fluida, forte e íntima, que mais de uma vez me perguntei se ela teria um parto orgásmico. Juro!

Assim que a bolsa rompeu, ela chamou o marido e foram pro chuveiro. O problema é que a companhia de água aqui não anda nada competente, então o relógio logo parou de girar e a água ficou limitada. Sem problemas. Levei a bola pra dentro e A. ficou lá, concentrando nas suas contrações sentada na bola. Dei-lhe uma toalha porque ela disse sentir frio, Maria José ouviu a bebê. Tudo certo. Tudo lindo.

Seu empoderamento era tão evidente que Andréia lidava super bem com a dor. Não reclamava, não lutava contra ela, apenas deixava vir e se concentrava. Como a onda: encara, mergulha e passa. Esperando a próxima!

Começamos a encher a piscina e essa foi a tarefa mais difícil da tarde! Enchia aos baldes, esquentando água no fogão e o trem nada de esquentar. Aproveitei os períodos introspectivos de Andréia, vendo que seu trabalho de parto agora estava bem rápido, e fui arrumar a cama pra ela poder deitar depois. No quarto, o pequeno “santuário” que tinha sugerido para preparar, com fotos de momentos importantes, coisas da bebê que chegava, almofadas com palavras bonitas, caneca de mãe, o penduricalho da porta com o nome e uma bonequinha… Muito amor!

Quando ela entrou na piscina, a água ainda não estava quente. Mas não reclamou, persistíamos esquentando no fogão. Ela ficava lá, as contrações já bem fortes, gritava, gemia, virava os olhos; o marido ao lado, sentado no sofá, segurando sua mão, secando seu rosto, dando beijos. Na piscina entrou e ficou, não saiu mais. Nasceria ali, na água. Eu, sentada ao seu lado, jogava água na barriga, no colo, passava a mão no rosto, dizia “está indo bem”.

Em nenhum momento pediu cesárea, em nenhum momento pediu analgesia, em nenhum momento pediu ocitocina. Nenhum toque também, totalmente hands off e respeitoso! A parteira de tempos em tempos ouvia a bebê: tudo certo! Ta linda, arrasou, vamos a isso.

Dava água, dava barrinha de cereal, secava seu rosto. A. começava a ficar muito cansada com tantas contrações. Começou a perguntar se estava mesmo tudo bem e nós a tranquilizávamos, está indo bem! Super bem! Seus pés já estavam super brancos e enrugados da água, ela começava a reclamar da posição. Sugeri que o marido entrasse na banheira também, juntos acharam um jeito que desse pra ambos.

Perto das 16h, Andréia entrou no expulsivo. Cerrava os dentes, vocalizava e grudava na borda da piscina. Víamos a bebê lá embaixo, pronta pra sair. O marido nos interrogava com os olhos: tudo certo! Continua. Por três vezes a bebê coroou e voltou, vimos a bossa, mas não saiu a cabeça. Andréia gritava, cansada. Começou a me perguntar se estava acontecendo algo, dizer que achava que estava cansada demais e não conseguia fazer a força necessária, perguntava porque estava demorando. Eram perguntas que ela sabia a resposta, mas o cansaço martelava e fazia com que se questionasse. Sentada junto à borda da piscina, eu disse: “não está demorando, é o tempo dela, o tempo que ela precisa, ela sabe a hora de nascer”. Na quarta vez, a cabeça saiu! Uns longos minutos sem contração e ela começou a perguntar novamente: está tudo bem? Por que não vem a contração? E se eu não conseguir fazer força? Respondi logo “vai vir, fica calma, seu corpo sabe fazer força; a Clara já está quase nos seus braços, confia nela!”. Mais uma contração e lá vem a pequena-grande Clarinha, 17:38, nas águas da piscina, com seu lindo cordão pulsando.

A parteira pegou e entregou pra mãe, que abraçou junto do pai, todos completamente extasiados. O rosto dela dizia tudo: choro e sorriso, uma alegria de alma pura que não se descreve. A avó correu e chamou o irmão mais velho, que estava no quarto. Ele veio correndo, parou do meu lado: “nasceu?”. Colocou as duas mãos no rosto, com um sorriso largo, olhando a piscina. Ficou meio aturdido, correu pro lado do pai e o abraçou, começou a chorar. Chorei junto! É essa a cena linda que vai ficar gravada na minha memória quando pensar na linda Clarinha e na forte Andréia! Ela, com Clara nos braços, chorando e rindo, Alexandre, o marido, com um braço passado no ombro da companheiro e o outro abraçando a cintura do filho, com o rosto enterrado na sua barriga, também chorando, Gabriel, o irmão mais velho de sete anos, grudado no pai, olhando, meio chorando, meio sorrindo, emocionado. Olhei pro lado e vi a irmã dela, Juliana, que tivera um parto normal hospitalar traumático (mesmo) e uma cesárea, chorando aos montes enquanto filmava o momento.

Lindo! VBAC (parto vaginal após cesárea) em casa, com 41s e 5 dias, sem toque, sem analgesia, sem ocitocina, sem soro, no tempo do bebê e da mamãe, respeitoso, cheio de amor no seio de uma família maravilhosa! Clarinha veio com 50cm, 3840kg, lindos olhos escuros e um corpinho rechonchudo encantador!

E eu? Depois de chorar o que tinha pra chorar, tirar tanta foto que meu celular vai precisar de uma formatação e aprender a arte da paciência, fui pra casa com meu menino e meu companheiro, que foram me buscar. Foi até difícil dormir com o coração tão transbordante e agitado. E aquele sentimento que às vezes preenche a alma: gratidão!

https://youtu.be/nhk6RoE9ftQ

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