Relato de doula – Chegada do Pedro

Fotografia por Julia Mux!
Fotografia por Julia Mux!

Esse foi um caso bem maluco. Fernanda me procurou no face quando já estava a termo, dizia que ela e o companheiro estavam com medo de ficarem sozinhos no parto. Seria um domiciliar, embora alguns médicos do plano que a atenderam para liberar os exames tivessem resolvido fazer as perguntas mais descabidas do mundo sugerindo cesárea. Diziam tinha circular de cordão, que ela era velha, que podia entrar em sofrimento (lá vem a bola de cristal), inventavam mil desculpas. Felizmente não sabiam da equipe de PD que acompanhava a Fernanda paralelamente.

Voltando, fiquei apreensiva de aceitar encontra-los e acompanhar o parto, pois era muito perto da DPP de outra gestante que já estava acompanhando antes. Marcamos encontro, desmarcamos; marcamos o segundo, desmarcamos. No terceiro quase não dava certo, desencontramos e acabaram vindo aqui na minha casa mesmo.

Conversamos muito superficialmente, era só um encontro pra gente se ver pessoalmente, explicar como trabalho e marcar um encontro a sério. Marcamos para hoje, feriado da Independência.

Domingo de manhã, Fernanda me avisa: estou em trabalho de parto. Me arrumei, peguei as coisas e fui. Dia lindooooo! Cheguei às 8:30.

Ela já estava com 5cm de dilatação, reclamando de dor embaixo do chuveiro. A Bruna, obstetriz, chegara pouco antes de mim e trabalhava com Vinicius, o pai, para encherem a piscina.

Fernanda passou o parto todo andando de um lado pro outro, não ficava confortável em nenhuma posição. Só o chuveiro ajudava. Me disse uma vez “não acho posição, nada está bom, Aline!”. Eu sabia o que era aquilo, era medo.

Tudo que lhe disse o tempo todo foi: não briga com a contração, deixa vir. Respira fundo, você está indo bem.

Mas ela tinha medo. Não admitiu até os últimos segundos, quando finalmente seu corpo gritou: “eu to com meeeedo!!”.

Mesmo na reta afinal, não havia muita introspecção. Fernanda tentava controlar o parto por tudo que tinha lido, preocupava com os vizinhos, com a falta de água do bairro que limitava… Não se desprendia do material da forma que precisava

Eu lhe dizia: se entrega, confia no seu corpo. Chama o Pedro! Ele está nessa com você!

E ela chamava. Chorava. Urrava como uma ursa, leoa, uma mamífera. Parto é animal, sim, somos animais. Somos mamíferas. E Fernanda urrava como uma mamífera!

Ela achava que aquilo era fraqueza, mas era o contrário. Era a força do corpo, sabíamos disso! Vinha a contração e com ela um urro e um apelo a Deus!

Quando começou a dizer “eu não consigo, não aguento mais”, sabíamos que a hora se aproximava. Ela sabia também. Vinicius, o pai, sabia também. Nós a lembramos: lembra disso? Falamos disso! Ta acabando!

Ela acenava com a cabeça, sabia que era verdade, mas a reta final de um parto não é lógica, não é raciocínio. É subconsciente, é alma, é animalidade. Então seu consciente chorava: eu não consigo! E seu subconsciente urrava com a força da alma.

Quase não usou a banheira, o lugar mesmo era o banheiro. O chuveiro. A água e a força enquanto o mantra que ela me pedira pra por tocava ao fundo.

Ela chorava, urrava, pedia água a toda hora! Pedia quente, pedia gelada, alternava, queria tudo. A dualidade de quem está passando para outro nível de consciência, mas insiste em se apegar aqui, ao material. Era o controle e o medo, eu sabia. A preocupação. Mas nem isso poderia parar o corpo, bebês nascem de todo jeito e o corpo dela seguiria seu curso natural como tem que ser!

Coloquei a banqueta de parto no banheiro. Ela não quis. Mas logo depois ordenou: “me dá o banco”. Eu soube que era a hora.

É incrível, mas é exatamente assim. Enquanto a última hora parece fraqueza, briga com o cansaço, esgotamento, quando a hora chega, a mulher se transforma. Seu corpo dita as regras. Eu, que não sou besta, segui. Dei o banco pra ela, ia nascer. Tinha certeza.

E assim foi. Ela berrou e chamou, o pai veio buscar a equipe que não achava que seria agora (por causa de um engano com a linha púrpura). Mas é o corpo quem sabe.

Urros, força, contração. E lá veio Pedro, 11:50 da manhã, num parto rapidíssimo! Quando saiu a cabeça, o corpo veio todo de uma vez, numa baita surpresa! 3 minutos depois sai a placenta espontaneamente e ainda pulsa por um minuto inteiro!!!

Pedro foi recebido e entregue à mãe que chorava sem lágrimas e sorria, a dualidade tão característica de um momento tão poderoso.

Parto lindo, mulher forte que brigou contra todas as desculpas “está velha, acima do peso, pressão alta (subiu duas vezes depois de entrar a termo), circular de cordão”. De fato, o bebê nasceu com duas circulares bem rentes. APGAR 9/10, para tristeza dos cesaristas.

Nasceu Pedro, nasceu a mãe Fernanda e nasceu o pai Vinicius. Em casa, amado, respeitado, sem procedimentos de rotina desnecessários.

Natureza poderosa não se controla. Parto é entrega.

Nós na consulta pós-parto: carimbo, conversa e sorriso!
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