Sobre maternidade e feminismo

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Fonte: desconhecida.

Sou feminista e também sou mãe e faz algum tempo que quero abordar o assunto “maternidade” sob o viés feminista. Sinto-me muitas vezes não amparada dentro do movimento nas pautas relativas à maternagem/maternidade e isso me deixa um tanto quanto frustrada. A impressão que tenho é que às vezes só se considera a escolha pela não maternidade como uma pauta feminista. Compreendo que ir contra a pressão exercida pela sociedade para a mulher assumir o seu papel materno, torna mais visível a influência patriarcal. E também que muitas mulheres estão exercendo seus papeis de mães não por vontade própria, mas de modo compulsório. Realmente, acredito que obrigatoriamente não faça parte do construto do “ser mulher” a maternidade, mas toda mãe é abrangida pela mulheridade.   O que quero dizer é que a maternidade compulsória é pauta feminista justamente porque lutamos pelo direito de escolha pelo seu não exercício, mas também pelo seu exercício e não vejo motivos para que as mães feministas sejam negligenciadas.

A coação da sociedade para seguirmos o roteiro “normativo” pré-estabelecido nos reduz as nossas funções biológicas (mesmo que na prática, nem todas as mães tenham tido seus filhos por esse meio). Somos criadas e induzidas uma vida inteira para acreditar que o ápice de nossa existência é a maternidade. Além disso, o esteriótipo materno faz com que as mães estejam envoltas em uma caricatura divinal e que sintam profunda culpa e pressão na construção de seus relacionamentos com as crias e no reflexo de suas imagens na sociedade. Nesse cenário, perde-se a identidade de mulher independente, desassociado de seu papel materno. As sobrecargas são muitas: o enquadramento imposto nesse esteriótipo, a constante fiscalização do ideal maternal, o desrespeito às escolhas quanto ao exercício da maternagem, o protagonismo compulsório do cuidado, etc. E essas pautas são constantemente ignoradas dentro do próprio movimento feminista ou quando são abordadas têm pouca repercussão.

Mulheres estão sendo mortas em abortos clandestinos e isso inegavelmente tem de ser exposto e combatido. Mas também estão sofrendo violências obstétricas inimagináveis, estão tendo a sua escolha de parto negligenciada, estão sendo usadas duramente na comercialização de intervenções médicas desnecessárias ligadas ao parir, estão sofrendo com o enquadramento do estereótipo materno imposto e sendo ignoradas simplesmente por terem escolhido vivenciar a experiência materna. Essas pautas são feministas, essas pautas precisam ser discutidas de maneira urgente e as mães feministas precisam ser ouvidas.

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