Vamos falar sobre o pós-parto?

Muito se fala de preparo para o parto hoje. Têm cursos, rodas e encontros para casais grávidos, compram livros e veem filmes, leem relatos, veem vídeos e séries de fotografias, mulheres com informação e vontade contratam doulas e educadoras perinatais para se planejarem pro tão esperado dia. Planeja-se nos mínimos detalhes, até a decoração que se quer, o que quer comer, quem estará, chama fotógrafa, faz vídeo.

Eu sei que não estou falando de uma condição para todas, mas é uma condição existente. Eu sei que esse não é o quadro da gestante pobre que vai parir no SUS, eu sei, gente. Não vivo numa bolha onde todos são ricos e não quero assumir esse ponto de vista aqui, seria tão surreal quanto as novelas da Globo, onde todos são brancos e ricos. Mas mesmo as mulheres mais pobres se preocupam com o dia do seu parto e pensam numa forma de se preparar – apesar de que o “preparo” de uma mulher sem informações ao seu alcance e sem recursos financeiros não é o mesmo “preparo” da mulher que pode pagar e tem acesso a tudo. De uma forma ou de outra, cada uma faz o que pode à sua maneira. Imagina e se prepara à sua maneira.

E o pós-parto? Esse período esquecido…

Para ele não há preparação. Temos algumas ideias do que queremos quando o bebê nasce, não é? Quero amamentar em regime exclusivo, quero que durma comigo ou só no berço, quero fazer um quarto Montessori, quero que minha mãe fique uns dias em casa para me ajudar, quero parar de fumar… São ideias soltas ao vento, ululantes e que não são encaradas com a seriedade que merecem. Quase nunca colocam a mulher – ou mesmo o casal – no centro das reflexões. Pensam o bebê e só o bebê.

Atenção que não discordo disso! É natural que toda a atenção esteja voltada para o novo membro da família. Pensemos nossos bebês, é claro! É importantíssimo refletir e tentar planejar como recebê-los e como queremos agir em relação aos filhos que estreiam no mundo. É que às vezes, não raramente, as coisas fogem ao nosso controle. Percebemos que não é bem como imaginamos na gravidez, ele (o bebê) reage um pouco diferente do esperado, o tempo parece correr de forma inesperada, a relação com o companheiro ficou um pouco estranha. É difícil controlar as mudanças que tentamos prever, mas ainda não aconteceram e não dependem inteiramente de nós.

Todavia, pensemos a mãe também. Essa figura não pode ser deixada de lado. Ela é crucial. O bem estar do bebê também depende do bem estar da mãe, então colocar o bebê no centro das atenções sem colocar a mãe juntamente dele é um erro fatal.

A mãe que, apesar dos possíveis desconfortos trazidos pela gravidez, tinha todo o tempo do mundo para fazer suas coisas enquanto o filho estava do lado de dentro, se vê muito atarefada e sufocada no pós-parto. A criança do lado de fora mama, chora, quer colo, atenção. A criança do lado de fora depende inteiramente dela, pois não sabe fazer nada sozinha além de respirar e observar. O bebê recém-nascido apenas é: ele existe numa dimensão de tempo contínua, não há dia ou noite, não há agora ou depois, não há segundos e horas, é uma linha ininterrupta com acontecimentos que se sucedem, rostos que aparecem e desaparecem (para voltar ou pra nunca mais?). O bebê apenas sente e observa, não faz raciocínio lógico. E por isso está tão dependente da mãe.

Ela, por outro lado, se vê requisitada em 100% do seu dia. Não importa quão feliz esteja – e pode estar até mais confusa que feliz – seu tempo é distribuído entre dar de mamar e fazer dormir, trocar fraldas, roupas, dar carinho e atenção àquele novo ser incrível que ela trouxe ao mundo. Quando o bebê dorme, ela não raramente tem de escolher entre tomar banho OU comer OU dormir OU fazer algo pra si. E o tempo pra si é algo que faz tanta falta, é tão importante… Não há espaço para processar suas vivências, seus sentimentos, falar de si. Está tudo focado no bebê. É assim que as coisas estavam previstas, afinal?

depressão pós-parto

E é nessa confusão exaustiva em que a mãe não consegue dormir direito, tem os horários trocados e por vezes nem consegue tomar banho todo dia (e lavar o cabelo é um luxo) que a mulher se sente sozinha, desamparada, desanimada. E o desânimo pode se aprofundar, fazendo-a pensar que vai ser sempre assim, que é pra ser assim, que isso é maternidade e não tem solução. E vira um babyblues. E vira uma depressão pós-parto. E isso é um quadro clínico, não é brincadeira.

E o casal não consegue se relacionar com o novo bebê ali. O pai sente falta de atenção, a mãe sente falta de atenção. Ambos sentem falta de carinho, toque, de sexo. Não há libido, muitas vezes, por questões hormonais fisiológicas completamente normais. E o casal se vê confrontado, não se reconhecem como o casal que foram e encaram uma nova dinâmica que mais os faz parecerem colegas que dividem uma casa do que um casal romântico. Porque a relação mudou, está em outro estágio e exige outra dinâmica. Mas eles não se prepararam pra isso e não sabem como lidar.

Que ciclo confuso e cheio de obstáculos! E tudo isso por quê?

Porque imaginamos, na gestação, que tudo no pós-parto acontece como no parto: naturalmente. Pode ser um pensamento inconsciente, mas que é assumido quase automaticamente. Assim pensamos sobre a amamentação, que apesar de natural, é uma habilidade aprendida. E quando temos dificuldades, choramos estressadas nos perguntando onde erramos e o que há de errado com nossos corpos. E não há nada, só precisamos aprender. Precisamos de apoio. Assim é com a falta de libido: por que não sinto vontade de fazer sexo? Não gosto mais do meu companheiro?

Por isso é preciso pensar o pós-parto. É preciso buscar apoio, ser amparado, aceitar ajuda. Aliás: exigir ajuda. Mãe, você deve exigir ajuda sem sentir vergonha disso ou sem sentir receio de estar incomodando. Você precisa de ajuda, todas as mulheres precisam. Todas. Ricas, pobres, índias, europeias, cristãs, ateias, muçulmanas, católicas, espíritas, umbandistas, negras, brancas, mulheres do Curdistão, do Chile, de Luanda. De todos os lugares do mundo. Nós precisamos de ajuda no puerpério.

Não tenha medo de admitir, isso não é fraqueza: é sensatez.

Use o período da gestação, quando as coisas ainda estão na ordem conhecida, para se preparar: alinhar as expectativas e as possibilidades, o que se quer e o que se pode fazer, quem pode ajudar, que ajuda profissional procurar. Mas, sobretudo, não deixe pra depois ou pra nunca. A maternidade não precisa ser uma luta, ela pode ser muito mais fácil e leve, principalmente para iniciar a caminhada.

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